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terça-feira, 6 de abril de 2010

O Equilibrista - Satcine

Coluna Satcine publicada na revista Prana Yoga Journal Mar 2010 - André Melman

O Equilibrista (DVD)
Direção: James Marsh, 2008


Filme vencedor do Oscar de melhor documentário no ano passado, narra a estória do francês Philippe Petit, que apesar do pequeno sobrenome, planejou durante anos e realizou a façanha de atravessar a distância entre as então existentes torres gêmeas do WTC em Nova Iorque. Detalhe, caminhou durante uma hora sobre um cabo de aço acima de 400 metros de altura, tudo ilegalmente.

Quando assisti pela primeira vez no cinema, tive a sensação de perder o chão, literalmente. Como poderia uma pessoa continuar focada por tantos anos na realização de uma visão, apesar de todos os medos e inseguranças a sua volta?



O Equilibrista, ou "Homem sobre o cabo" como seria a tradução do original, traz o percurso de um sonhador. O perigo e a morte para ele, eram despertadores - um chamado para a vida, para o sonho, para a atenção plena.

A narração, através de entrevistas com outros participantes dessa epopéia vivida há mais de 25 anos, trouxe também um outro ponto-de-vista: a linha fina que é o foco no processo, a cada momento. Como é possível cair para um lado, a desistência do sonho, e pra o outro, o apego ao resultado além de qualquer consequência.


Linda a cena da travessia final ao som minimalista de Eric Satie. A pós-conquista também gera material para reflexão, pois o fio da navalha continua, mesmo com os pés firmes no chão.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Na Natureza Selvagem

Coluna Satcine publicada na revista Prana Yoga Journal Dez 09 - André Melman

Na Natureza Selvagem (DVD)
Direção: Sean Penn, 2008
A adaptação do livro de Jon Krakauer baseia-se na experiência real de Christopher McCandless. um jovem recém-formado nos EUA que abandona todas suas posses e segue numa jornada rumo ao Alasca. Vai de encontro à natureza pura onde a sociedade não dita as regras. Chris é um peregrino em busca incessante pela verdade; foge das mentiras familiares e dos papéis que teria que assumir para ser aceito.
Um filme que expõe a delicadeza que é estar realmente vivo. Sobre a beleza de se ver só numa grande aventura, e dos encontros mágicos que esse estar sozinho permite. Sobre as inevitáveis dores ao experimentar a busca pela independência, e suas incoerências ao se ver como parte de um todo maior. Questões surgem em relação aos limites, quando a própria natureza nos impõe seus ciclos, com cada estiagem e cheia de seus rios.
Uma celebração e lição de vida. Vale no mínimo pelas imagens e pela trilha, assinada por Eddie Vedder. Quem já viu e ficou curioso para saber mais sobre a vida de Chris pode dar uma olhada no documentário The Call of the Wild (não lançado no Brasil), com entrevistas de várias pessoas que cruzaram o caminho do jovem peregrino - Call of the wild.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Vida dos Outros - dvd

Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Out 09 - André Melman

Alemanha Oriental, começo dos anos 80, antes da queda do muro de Berlim.

A espionagem invasiva que o filme retrata, me mostrou uma batalha: artistas que vivem a partir da expressão de um lado e burocratas que vivem do controle dessas expressões do outro.
E tive o prazer de ver uma veia artística nascer em um burocrata, e a tristeza de testemunhar o medo do descontrole contaminar uma artista.

Fácil enxergar vítimas e abusadores, mas com um olhar mais afiado, é possível captar como cada um vai montando sua própria estória.
A vida dos outros passa a ser a de si mesmo, os outros como espelhos, sejam eles guias ou desafios no caminho.

Quando uma artista deixa de focar em simplesmente ser, e escolhe fazer para ser aceita, para se sentir segura, afastando-se do Dharma, é presa fácil num mundo de controle externo, dos burocratas. E também quando um burocrata altamente controlado passa a escutar com atenção e cuidado, uma possibilidade enorme surge para deixar o lugar seguro e arriscar-se em ser.

A beleza do jogo entre vilões e heróis – Lila - uma dança, onde a verdade dentro de cada um, ou o abandono dessa verdade, vão criando tonalidades mais cinzas ou mais coloridas.

Nesse filme entendi realmente o que representou a queda do muro. O muro está se desmontando dentro de mim, e um antigo mundo de controle excessivo vai dando lugar a novas formas de ser e se expressar.

domingo, 13 de setembro de 2009

O Contador de Estórias

Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Set 09 - André Melman.

O cinema sempre me ofereceu um pote de possibilidades, percepções e insights. Desde ET, meu primeiro herói que curava plantas e pessoas com um toque de dedo, os filmes vem expandindo minha visão de mundo e de mim mesmo.

Quero compartilhar os presentes que recebi ao assistir este filme de Luiz Villaça, em cartaz e baseado em fatos reais.
Roberto Carlos teve uma infância bastante comum em capitais brasileiras, viveu entre a recém-criada Febem e as ruas do centro de Belo Horizonte nos anos 70. Seria uma estória a mais de desencontros, que tem seu destino modificado pela presença de Margherit Duvas, pedagoga francesa que se interessa pelo relato de vida do menino, que já era dado como perdido.

Margherit representa aqui o poder da escolha: mesmo com todos os medos, escolhe confiar no que sente. A cada ameaça, seu foco permanecia na inocência, e a criança ferida foi se abrindo para uma possibilidade esquecida: o amor. Roberto Carlos é hoje um contador de estórias de fama internacional, compartilhando sua verdade com crianças de todos tamanhos mundo afora.

Ao escolher ver o real e permanente por trás de tantos medos e traumas, Marguerit ensinou sendo, sem teorias ou filosofias. E eu pude me conectar com essa criança inocente e verdadeira, em mim, em cada um, além das defesas criadas por anos de batalha.

O cinema novamente me trazendo de volta, que bom.

domingo, 12 de julho de 2009

A Partida - ouvindo o silêncio


Sabe quando já ficou claro que uma determinada atitude já não se sustenta mais, e ainda não existe uma nova atitude consolidada no lugar da antiga?
Aquela sensação de estar numa daquelas pontes entre montanhas, com o desfiladeiro abaixo centenas de metros, onde qualquer vento já desestabiliza o andar?
É inseguro até mesmo falar desse caminhar instável quando apenas vislumbres do outro lado são intuidos. É possível olhar pra trás e ver os pontos de apoio, o antigo que dá apoio a estrutura. Mas o peso vai se deslocando para um novo lugar de sustento, conforme se caminha adiante.

Uma atitude onde sinto essa transição é a atitude perante o fazer. Cresci aprendendo e sendo educado para encarar o fazer a partir do controle: eu quero, eu decido, eu controlo, eu faço, eu colho os resultados. Esse eu independente se esforça, se sacrifica e recebe sua recompensa. Praticamente todas as provas do mundo sempre disseram que esse modelo funciona - luntando, competindo, se sacrificando, eu me realizo.

Mas um incômodo vem surgindo, de forma quase espontânea passei a intuir, sentir, absorver uma nova possibilidade: o deixar que seja feito, o abrir espaço para que um algo novo surja. Um questionamento profundo em relação ao fazer vem praticamente rasgando camadas de condicionamento.
Antes era por exemplo uma atitide de esforço trabalhando no mercado financeiro, para garantir meu sustento, meu conforto, meus ideais de casamento feliz, família, filhos e uma aposentadoria tranquila. Um movimento constante em relação à um futuro pessoal de auto-estima e paz, que sempre escapava pois era sempre futuro.
Também foi por exemplo a cobrança de ter que fazer algo pelo mundo, me juntar com outros que queiram mudar o que vemos, nem que fosse a partir da culpa. Todos juntos sofrendo, se estressando e tentando controlar as peças para um mundo melhor e em paz.

Seria realmente possível contruir um mundo de felicidade e paz a partir de uma atitude cheia de expectativas, controlando tudo e todos para que essas se realizem? Seria possível a partir de uma atitude de luta e esforço em relação ao mundo à minha volta? Perguntas como essas vem surgindo de forma inocente e crescendo em número e profundidade.

Lá estava a ponte de cabos semi-soltos, balançando à minha frente. E nessa ponte venho caminhando. Em alguns momentos parece um suicídio soltar o controle, parece ser um ato que ameaça a minha sobrevivência e ameaça as idéias de muitos à minha volta. Continuo nessa ponte, com muitos medos ao meu redor, mas quanto mais percebo onde estou, mais posso apreciar a vista, mais floresce uma confiança em algo que inclui tudo ao redor.

Um dos últimos filmes que assisti, "A Partida", traz alguns simbolismos fortes dessa passagem, dessa transição. Um filme japonês, que traz a força do silêncio, da comunicação não-verbal, do sentir.
Um jovem violoncelista do interior do país se esforçara para ter um lugar numa orquestra de Tokyo. Ficou chocado quando a orquestra em que havia conseguido o posto foi dissolvida.
Nesse momento lá estava a ponte bamba à sua frente, instável, insegura e sem nehuma garantia de levá-lo ao outro lado.
O bonito do filme é assistir a caminhada dele pela ponte, como um samurai, sendo o principal apoio a sua própria verdade - voltar para o interior, aceitar um emprego sem saber exatamente do que se tratava, fazer uma tarefa rejeitada por quase todos. A volta para o interior foi uma volta para si mesmo, um caminho para o sentir, para uma verdade independente de tantas crenças pessoais e coletivas, independente de tantos gostos e aversões.
O filme trata da morte, do corpo físico, mas principalmente da morte de um paradigma. A partida de um modelo para um novo, onde o medo pode dar lugar a talentos antes desconhecidos, a rejeição pode dar lugar à compreensão, onde o futuro pode ser um lugar que já existe agora.



Olhando dessa ponte já vejo que é possível soltar com mais tranquilidade meus planos futuros de sucesso e felicidade. Já vejo e sinto com mais frequencia que a paz existe somente agora, mesmo que muitos digam que não, me digam que está lá do outro lado da ponte, bem distante, onde só se chega com muito esforço e sacrifício.
Me inspiro no personagem japonês do filme, na coragem, na dedicação carinhosa, na possibilidade de ouvir a voz do silêncio, da verdade, mesmo com todos os medos do mundo girando ao redor. E vou percebendo o meu novo ponto de apoio, não no outro lado da ponte, mas num lugar muito profundo, aqui dentro.

sábado, 11 de outubro de 2008

Uma crise de valores



Estamos assistindo um momento de aflição no mercado financeiro, com bolsas de valores despencando no mundo todo e o medo tomando conta, principalmente de quem mais esperava ganhar com seus investimentos.

A questão que me coloco, e agora pra quem está lendo essas palavras, é exatamente em relação aos investimentos que temos feito. Temos escolhido investir onde há maior expectativa de ganho pessoal, de preferência, sem saber quem está perdendo enquanto ganhamos.

A bolsa de valores é o grande exemplo prático dessas escolhas que temos feito. Compramos uma ação sem saber quem está vendendo, quem está por trás, o que faz, suas necessidades - e vendemos da mesma forma que compramos. Sem vínculos com o negócio, com qualquer parte envolvida, sempre com o foco em ganhar mais. Não vejo problema em ganhar mais, o ponto aqui é porque estamos querendo ganhar sem querer ver as consequências das nossas escolhas.

Queremos ganhar sem sentir culpa, sem sentir a culpa de saber que alguém está se dando mal com minhas escolhas. Caso exista um vínculo com a outra parte, vou achar muito esquisito ver o outro perdendo para suprir minha necessidade de ganhar. Ganhar junto com o outro acaba nos parecendo algo tão distante quanto os times do Brasil e da Argentina ganharem juntos a final da Copa do Mundo.

Esses são os valores que temos escolhido afirmar e reafirmar. Ao invés de olhar para essa culpa e este medo, preferimos negar tudo isso. Escolhemos desconfiar em primeira mão, com medo de perder, e escolhemos nos separar e nos desvincular com culpa por ganhar.

Será que existe uma outra maneira de lidar com esse medo e essa culpa? Será que existe uma outra forma de escolhermos para irmos juntos, além dessas limitações?

A minha resposta é sim, existe uma outra maneira, e tenho aprendido essa possibilidade através das minhas escolhas nas relações de cada dia. Tenho percebido pessoas muito queridas escolhendo de outra maneira, e me inspiro nessas escolhas.

Cito aqui a crise financeira, mas a crise vai muito além do mundo da grana, a crise permeia todos valores, todas nossas escolhas. A maneira que temos escolhido não se sustenta mais, está cada vez mais difícil nos cegar para as consequências. Os custos ao negar são muito maiores que os ganhos percebidos, queira ver ou não.

Assisti ao filme “Ensaio Sobre a Cegueira” na semana passada, aquele baseado no livro do Saramago. Saí do filme com a plena sensação de que a confiança e o vínculo entre pessoas é a única solução para olharmos o medo sem ser dominado por ele. Podemos escapar juntos, ganhando juntos ou continuarmos cegos, perdidos uns dos outros e sofrendo (aos cegos de vista física, já aviso aqui pra evitar algum processo na justiça: a cegueira aqui é somente uma metáfora para nossa dificuldade de ver o que está realmente acontecendo, ok?).

Olhar o medo e a culpa de frente pode doer, trazer tristezas e raivas escondidas. Pode parecer um monstro enorme, mas não vejo outra maneira para ir além. E fazer isso juntos é a grande possibilidade de enxergar de outra forma, a possibilidade de realizar o milagre de voltar a enxergar.

Seja na relação paciente-terapeuta, num casal, num grupo de amigos ou numa empresa, cada um que passa a enxergar pode compartilhar com o outro e assim vamos aprendendo a confiar, criando vínculos mais fortes, percebendo que ganho sempre que o outro ganha, perco sempre que o outro perde.

Não estou dizendo aqui para todos darmos as mãos e assim vamos mudar o mundo. Falo aqui da responsabilidade de cada um, da minha e da tua, se assim quiser escolher agora. O mundo todo não precisa escolher junto comigo agora, mas tenho certeza que um amigo, um grupo ou quem sabe uma empresa toda escolhendo juntos facilita muito esse trabalho.

Esse trabalho é essencial se quisermos ver com os próprios olhos, se quisermos ir além da ansiedade sem fim, ir além desse medo de perder nossos antigos valores e crenças. Muitos vão dizer que é uma utopia, uma ingenuidade, mas prefiro experimentar na prática.

Aqui um cego escreve, mas um cego decidido a enxergar, decidido a me ver em cada um que cruza o meu caminho. Decidido a criar junto, novas formas de se relacionar, novos modelos de negócios, novas possibilidades de confiar e amar. E quem quiser ser responsável pela própria felicidade, que caminhemos juntos. Com o perdão pelas minhas dificuldades de enxergar e confiar.

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