Imagine um rio, visto de cima, o leito com suas sinuosidades, curvas.
Imagine os campos, arvores, florestas, bichos, vivendo nas margens desse rio.
Imagine alguns grupos de pescadores, agricultores locais, que pescam , plantam e colhem, vivem a partir da vida que esse rio traz. Se alimentam, trocam, vendem e compram em harmonia.
Imagine que um grupo de pessoas instale um fábrica, uma unidade de produção na margem do rio.
Imagine que essa fábrica utilize alguns insumos tóxicos e a água limpa do rio. E despeje boa parte desses elementos tóxicos de volta nas águas, que seguem rio abaixo.
Imagine que esses elementos tóxicos cheguem até as árvores e bichos nas margens. Imagine que cheguem aos peixes, aos alimentos cultivados, aos pescadores e agricultores.
Imagine que esses pescadores e agricultores, sem peixes, doentes, já não possam exercer suas atividades com antes.
Imagine que alguns desses ex-pescadores, agricultores, passem a trabalhar na fábrica. Outros permanecem sem trabalho. Que aos poucos aquela cultura local vá se perdendo, que as relações vão se desintegrando, que o consumo de bebida aumente, adultos sem função, crianças sem visão.
Imagine que o desejo de comprar uma tv suba exponencialmente nessa "comunidade". Que ter o novo produto, o novo tênis, a nova boneca, seja a máxima local. Imagine que o dinheiro seja escasso, que os valores vão se perdendo, o ter passe a ser mais importante que viver. Que o rio torna-se somente um lixão me movimento.
Só imagine.
Agora imagine uma pequena mudança: os donos e gerentes da fábrica devem seguir uma nova regra. A água a ser utilizada na produção deve ser captada abaixo ( a jusante) do local onde os dejetos são despejados.
Imagine que a água com toxinas não servem para a fábrica continuar com a sua produção. Essa é fácil de imaginar. Imagine que eles vão precisar achar uma nova solução.
Imagine que os donos da fábrica entendam assim que o rio começa antes e continua depois dessa fábrica. Que a fábrica não é um elemento separado do todo onde está.
Imagine que a percepção de "quem sou", a princípio uma fábrica, se amplie para todo o rio, antes e depois dessa fábrica. Imagine que esse "eu" se amplie para toda a mata e bichos nas margens do rio. Que inclua os peixes, pescadores, agricultores, adultos e crianças.
Imagine que que esse "quem sou" continue se expandindo, pra todas as relações, para os clientes, parceiros, para todos diretamente e indiretamente envolvidos, para as matas vizinhas, rios, mares.
Dá pra imaginar?
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Pausa para inocência
Voltar pode ser tão ou mais interessante que partir. É como reencontrar consigo mesmo antes da partida, uma oportunidade para olhar de um novo ponto-de-vista, cada relacionamento com pessoas próximas, com lugares, espaços, objetos que por aqui permaneceram durante a viagem.
Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Voltando da bolha

Os últimos dias foram cheios no Schumacher College e nas redondezas. Saindo da bolha, uma força que praticamente impediu de me conectar com qualquer assunto fora do que estava vivendo aqui.
A sensação agora de estar sendo praticamente expulso da bolha, como que sendo colocado pra fora da casca confortável, do ambiente "controlável". E está sendo ótimo!
Foram duas semanas com um grupo de empreendedores de diversos países, iniciando ou desenvolvendo projetos e negócios. De alimentos a imigrantes, de maternidade a crianças, de construção a flores, focos diferentes mas todos voltados para o desenvolvimento de conexões reais entre as pessoas, e com o planeta Terra, esse organismo vivo.
Um grupo que me ensinou muito sobre quem sou e onde estou, que me encheu de esperança, de novas possibilidades, de confiança.
Num dos pontos altos do curso, na sexta-feira passada, tivemos o privilégio de estar com uma pessoa incrível durante o dia todo, Tim Macartney, um ex-jardineiro que hoje dirige um centro de liderança com clientes que vão de crianças a altos executivos de multinacionais. Um grande presente de aniversário. Diria que não vi nada de novo, nada que nunca tinha lido, pensado ou mesmo vivido - mas o contexto, a presença experienciada, me trouxe muito conforto e paz no caminho, uma certa tranquilidade ao perceber com clareza que liderar é simplesmente ser, verdadeiramente.
Falar sobre liderança com um grupo de empreendedores ávidos por desenvolver seus sonhos na prática, dentro de uma escola inglesa onde a cultura do pensar praticamente deixa em segundo plano a possibilidade de sentir (mesmo sendo uma escola com objeitvos holísticos) , poderia se tornar somente mais um daqueles guias sem vida, um daqueles passo-a-passo para se moldar, se inspirando nos grandes líderes do passado.
Não falamos de nenhum líder, não seguimos nenhum modelo de liderança durante o dia. Não montamos juntos uma estrutura de um plano de negócios durante o encontro. Simplesmente falamos de nossos medos, do que escondemos debaixo do tapete, dos nossos "wild dogs" - os cachorros selvagens da nossa personalidade que quando reprimidos reaparecem de formas sombrias.
Foi um dia onde o grupo se aproximou, onde as idealizações foram perdendo força, onde a honestidade consigo mesmo era a única coisa que servia pra se comunicar.
A partir desse lugar pudemos investigar mais a fundo nossos projetos nos dias que se seguiram. Investigar os principais dons, os próximos passos, organizar as idéias, apresentar pra diversos públicos, realinhar expectativas. E principalmente, pelo menos no meu caso, abrir mão do controle, da propriedade individual do projeto. Entendendo com mais clareza agora, que só serei feliz desenvolvendo um projeto aprendendo a receber amigos, mentores, parceiros, investidores e profissionais nesse espaço de desenvolvimento. Pessoas que estarão se comprometendo com o mesmo sonho, co-criando.
Hoje, aqui em Dartington na região de Devon, o céu está limpo, um azul brilhante, folhas cobertas pelo gelo, um silêncio no ar, uma sensação de espaço aberto, de nvoas possibilidades. Agradeço essa terra linda, aos encontros, aos amigos de hoje e sempre.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Transitando - 24 de Novembro de 2008
De Londres para Totnes, três horas de trem. Um dia de viagens, conexões, saindo bem cedo de San Giuliano, Toscana, Itália.
Posso dizer que senti a diferença no ar ao sair do avião em Londres, o rosto do oficial na alfândega, os olhares e passos rápidos – interessante como pode-se perceber facilmente as diferentes freqüências de energia que vibram em cada lugar.
E essa tem sido uma viagem com destinos bem distintos, culturas, passados e momentos que vibram cada um da sua maneira, com sua leveza ou densidade.
Talvez essa seja a viagem (e não é a primeira como vários de vocês sabem!) em que me sinto mais atento, mais presente, e percebendo essa presença crescer a cada dia – ao menos é o que parece.
Já se passaram 3 semanas desde que saí de São Paulo com o objetivo de aprofundar um pesquisa sobre diferentes formas e modelos de negócios/organizações envolvendo alimentos, cultivo da terra e comunidades, enfim, para abrir oportunidades de insights para os meus próximos passos.
Passei pelo Egito, onde pude conhecer pessoalmente a Sekem, um negócio de cultivo, produção e marketing de produtos orgânicos.

Na verdade um sonho que começou 30 anos atrás com o fundador da organização, que transformou áreas desérticas em férteis, modificou a visão do uso de agrotóxicos no país e construiu um negócio e uma fundação integrada com mais de 2000 pessoas envolvidas diretamente. Tive a oportunidade de conversar com parceiros, com o presidente da empresa, embora pouco contato com os funcionários e comunidade local. Mas o Egito merece um capítulo à parte num outro dia.
Estive também na Holanda, o segundo grande choque da viagem ao chegar no aeroporto vindo de Cairo (o primeiro grande choque obviamente foi a chegada no Egito). Em Amsterdam vivi um momento de intensa liberdade, como se já conhecesse aquele espaço, aquele tempo – milhares de ciclistas, canais cortando a cidade, muita água, trazendo uma certa serenidade. Lá pude conversar com o cunhado de uma amiga, executivo de uma das grandes empresas de marketing de produtos orgânicos e naturais da Europa/EUA, uma conversa bem pragmática, bem no estilo dutsch, e muito importante naquele momento.
O próximo passo foi Londres, a sensação de estar no filme Blade Runners, com robôs-andróides andando a passos rápidos de um lugar ao outro, como cavalos com tapa-olhos puxando charretes. Ser recebido pela Duda, uma amiga brasileira foi bem confortador. Na Inglaterra fui conhecer o Schumacher College em Totnes (onde estou agora retornando para um workshop de 2 semanas) - a escola é um centro internacional para estudos de formas sustentáveis e integradas de vida, também uma comunidade onde todos participam das atividades do dia-a-dia como cozinhar, cuidar da horta e limpeza.
A parada seguinte foi o grande paraíso alimentar da Toscana na Itália. Que delícia aquelas montanhas, rios calmos, o azeite que amplia os sentidos, o ar puro e leve, e claro, a beleza das italianas. Reaprendi a gostar de vinho, comer carne artesanal preparada pelos locais, colhi azeitonas pela primeira vez, cuidei de vinhedos biodinâmicos, dormi dentro de uma fazenda e conheci algumas cooperativas, produtores e outros negócios com ingredientes locais. Um dos grandes presentes foi ser recebido pela Lee, uma alemã empreendedora na Toscana e EUA, apresentada por um amigo, Thomas. Um contato ia levando ao outro, a sensação de fazer parte de algo bem maior, onde trocar, dar e receber se tornam a mesma coisa. Fui para ficar 2 dias e estive por 7, só posso dizer que espero voltar logo mais.

E hoje, saindo do interior da Toscana, para Pisa, para Londres, para Totnes onde participo de um encontro de empreendedores de vários países elaborando, redefinindo seus projetos, negócios. Criando formas sustentáveis, de longo-prazo, com base na harmonia e integridade de todos envolvidos, pessoas, terra, água, ar, bichos, plantas.
E parece ser essa a palavra-chave desses últimos dias, o prazo, o tempo percebido. Quanto mais consigo expandir o tempo, o prazo do que é vivenciado agora, para trás e para frente (lembrando da minha amiga rabina, Luciana), mais presente estou, mais a presença é vivida através de mim. Quanto mais alongo a percepção do que trago do passado e do que projeto para o futuro, mais espaço deixo aberto para o que é agora. Mais o passado e futuro de fundem e criam algo novo.
E vou percebendo que acima de tudo, que pesquisas sobre organizações e negócios, suas estórias, os próximos passos potenciais, é um grande espelho do que vejo, penso e sinto. E vou aprendendo a me enxergar nisso tudo, integrando minha vontades, firmando as bases para construir algo que seja acima de tudo um espelho, cada vez mais claro, divertido e em paz.
De Londres para Totnes, três horas de trem. Um dia de viagens, conexões, saindo bem cedo de San Giuliano, Toscana, Itália.
Posso dizer que senti a diferença no ar ao sair do avião em Londres, o rosto do oficial na alfândega, os olhares e passos rápidos – interessante como pode-se perceber facilmente as diferentes freqüências de energia que vibram em cada lugar.
E essa tem sido uma viagem com destinos bem distintos, culturas, passados e momentos que vibram cada um da sua maneira, com sua leveza ou densidade.
Talvez essa seja a viagem (e não é a primeira como vários de vocês sabem!) em que me sinto mais atento, mais presente, e percebendo essa presença crescer a cada dia – ao menos é o que parece.
Já se passaram 3 semanas desde que saí de São Paulo com o objetivo de aprofundar um pesquisa sobre diferentes formas e modelos de negócios/organizações envolvendo alimentos, cultivo da terra e comunidades, enfim, para abrir oportunidades de insights para os meus próximos passos.
Passei pelo Egito, onde pude conhecer pessoalmente a Sekem, um negócio de cultivo, produção e marketing de produtos orgânicos.

Na verdade um sonho que começou 30 anos atrás com o fundador da organização, que transformou áreas desérticas em férteis, modificou a visão do uso de agrotóxicos no país e construiu um negócio e uma fundação integrada com mais de 2000 pessoas envolvidas diretamente. Tive a oportunidade de conversar com parceiros, com o presidente da empresa, embora pouco contato com os funcionários e comunidade local. Mas o Egito merece um capítulo à parte num outro dia.
Estive também na Holanda, o segundo grande choque da viagem ao chegar no aeroporto vindo de Cairo (o primeiro grande choque obviamente foi a chegada no Egito). Em Amsterdam vivi um momento de intensa liberdade, como se já conhecesse aquele espaço, aquele tempo – milhares de ciclistas, canais cortando a cidade, muita água, trazendo uma certa serenidade. Lá pude conversar com o cunhado de uma amiga, executivo de uma das grandes empresas de marketing de produtos orgânicos e naturais da Europa/EUA, uma conversa bem pragmática, bem no estilo dutsch, e muito importante naquele momento.
O próximo passo foi Londres, a sensação de estar no filme Blade Runners, com robôs-andróides andando a passos rápidos de um lugar ao outro, como cavalos com tapa-olhos puxando charretes. Ser recebido pela Duda, uma amiga brasileira foi bem confortador. Na Inglaterra fui conhecer o Schumacher College em Totnes (onde estou agora retornando para um workshop de 2 semanas) - a escola é um centro internacional para estudos de formas sustentáveis e integradas de vida, também uma comunidade onde todos participam das atividades do dia-a-dia como cozinhar, cuidar da horta e limpeza.
A parada seguinte foi o grande paraíso alimentar da Toscana na Itália. Que delícia aquelas montanhas, rios calmos, o azeite que amplia os sentidos, o ar puro e leve, e claro, a beleza das italianas. Reaprendi a gostar de vinho, comer carne artesanal preparada pelos locais, colhi azeitonas pela primeira vez, cuidei de vinhedos biodinâmicos, dormi dentro de uma fazenda e conheci algumas cooperativas, produtores e outros negócios com ingredientes locais. Um dos grandes presentes foi ser recebido pela Lee, uma alemã empreendedora na Toscana e EUA, apresentada por um amigo, Thomas. Um contato ia levando ao outro, a sensação de fazer parte de algo bem maior, onde trocar, dar e receber se tornam a mesma coisa. Fui para ficar 2 dias e estive por 7, só posso dizer que espero voltar logo mais.

E hoje, saindo do interior da Toscana, para Pisa, para Londres, para Totnes onde participo de um encontro de empreendedores de vários países elaborando, redefinindo seus projetos, negócios. Criando formas sustentáveis, de longo-prazo, com base na harmonia e integridade de todos envolvidos, pessoas, terra, água, ar, bichos, plantas.
E parece ser essa a palavra-chave desses últimos dias, o prazo, o tempo percebido. Quanto mais consigo expandir o tempo, o prazo do que é vivenciado agora, para trás e para frente (lembrando da minha amiga rabina, Luciana), mais presente estou, mais a presença é vivida através de mim. Quanto mais alongo a percepção do que trago do passado e do que projeto para o futuro, mais espaço deixo aberto para o que é agora. Mais o passado e futuro de fundem e criam algo novo.
E vou percebendo que acima de tudo, que pesquisas sobre organizações e negócios, suas estórias, os próximos passos potenciais, é um grande espelho do que vejo, penso e sinto. E vou aprendendo a me enxergar nisso tudo, integrando minha vontades, firmando as bases para construir algo que seja acima de tudo um espelho, cada vez mais claro, divertido e em paz.
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sábado, 11 de outubro de 2008
Uma crise de valores
Estamos assistindo um momento de aflição no mercado financeiro, com bolsas de valores despencando no mundo todo e o medo tomando conta, principalmente de quem mais esperava ganhar com seus investimentos.
A questão que me coloco, e agora pra quem está lendo essas palavras, é exatamente em relação aos investimentos que temos feito. Temos escolhido investir onde há maior expectativa de ganho pessoal, de preferência, sem saber quem está perdendo enquanto ganhamos.
A bolsa de valores é o grande exemplo prático dessas escolhas que temos feito. Compramos uma ação sem saber quem está vendendo, quem está por trás, o que faz, suas necessidades - e vendemos da mesma forma que compramos. Sem vínculos com o negócio, com qualquer parte envolvida, sempre com o foco em ganhar mais. Não vejo problema em ganhar mais, o ponto aqui é porque estamos querendo ganhar sem querer ver as consequências das nossas escolhas.
Queremos ganhar sem sentir culpa, sem sentir a culpa de saber que alguém está se dando mal com minhas escolhas. Caso exista um vínculo com a outra parte, vou achar muito esquisito ver o outro perdendo para suprir minha necessidade de ganhar. Ganhar junto com o outro acaba nos parecendo algo tão distante quanto os times do Brasil e da Argentina ganharem juntos a final da Copa do Mundo.
Esses são os valores que temos escolhido afirmar e reafirmar. Ao invés de olhar para essa culpa e este medo, preferimos negar tudo isso. Escolhemos desconfiar em primeira mão, com medo de perder, e escolhemos nos separar e nos desvincular com culpa por ganhar.
Será que existe uma outra maneira de lidar com esse medo e essa culpa? Será que existe uma outra forma de escolhermos para irmos juntos, além dessas limitações?
A minha resposta é sim, existe uma outra maneira, e tenho aprendido essa possibilidade através das minhas escolhas nas relações de cada dia. Tenho percebido pessoas muito queridas escolhendo de outra maneira, e me inspiro nessas escolhas.
Cito aqui a crise financeira, mas a crise vai muito além do mundo da grana, a crise permeia todos valores, todas nossas escolhas. A maneira que temos escolhido não se sustenta mais, está cada vez mais difícil nos cegar para as consequências. Os custos ao negar são muito maiores que os ganhos percebidos, queira ver ou não.
Assisti ao filme “Ensaio Sobre a Cegueira” na semana passada, aquele baseado no livro do Saramago. Saí do filme com a plena sensação de que a confiança e o vínculo entre pessoas é a única solução para olharmos o medo sem ser dominado por ele. Podemos escapar juntos, ganhando juntos ou continuarmos cegos, perdidos uns dos outros e sofrendo (aos cegos de vista física, já aviso aqui pra evitar algum processo na justiça: a cegueira aqui é somente uma metáfora para nossa dificuldade de ver o que está realmente acontecendo, ok?).
Olhar o medo e a culpa de frente pode doer, trazer tristezas e raivas escondidas. Pode parecer um monstro enorme, mas não vejo outra maneira para ir além. E fazer isso juntos é a grande possibilidade de enxergar de outra forma, a possibilidade de realizar o milagre de voltar a enxergar.
Seja na relação paciente-terapeuta, num casal, num grupo de amigos ou numa empresa, cada um que passa a enxergar pode compartilhar com o outro e assim vamos aprendendo a confiar, criando vínculos mais fortes, percebendo que ganho sempre que o outro ganha, perco sempre que o outro perde.
Não estou dizendo aqui para todos darmos as mãos e assim vamos mudar o mundo. Falo aqui da responsabilidade de cada um, da minha e da tua, se assim quiser escolher agora. O mundo todo não precisa escolher junto comigo agora, mas tenho certeza que um amigo, um grupo ou quem sabe uma empresa toda escolhendo juntos facilita muito esse trabalho.
Esse trabalho é essencial se quisermos ver com os próprios olhos, se quisermos ir além da ansiedade sem fim, ir além desse medo de perder nossos antigos valores e crenças. Muitos vão dizer que é uma utopia, uma ingenuidade, mas prefiro experimentar na prática.
Aqui um cego escreve, mas um cego decidido a enxergar, decidido a me ver em cada um que cruza o meu caminho. Decidido a criar junto, novas formas de se relacionar, novos modelos de negócios, novas possibilidades de confiar e amar. E quem quiser ser responsável pela própria felicidade, que caminhemos juntos. Com o perdão pelas minhas dificuldades de enxergar e confiar.
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