domingo, 26 de julho de 2009

Além dos medos

Escrevo agora do Uruguai, Costa Azul. Estou há uma semana num intensivo de meditação e exploração de mim mesmo, um centro liderado por uma mestra australiana. Aqui, nem mesmo se usa a palavra meditação, mas unificação - perceber e viver a unidade dentro da dualidade. O que se ensina aqui é que tudo é um espelho de quem sou de verdade, que tudo o que vejo e percebo como dois (eu e o outro, sujeito e objeto) na verdade é um só.

A principal força que percebo aqui é que não existe teoria, mas somente experiência, explícita! Tudo o que acontece aqui é uma oportunidade para me conhecer, ir mais profundo. E posso dizer que é arrebatador – quanto mais me exponho, meus pensamentos e sentimentos, mais recebo de volta. Quanto mais insisto em continuar nas minhas elaborações mentais, mais sou empurrado a me conectar com o que sinto. É como aprender uma nova língua para perceber o mundo, sair da cabeça para o coração – com muito choro e muita raiva envolvida. Contrações e expansões.

Por isso resolvi escrever agora, pois aqui nesse centro existe um “lugar seguro” para me expor, mas me expor aqui nesse blog é um outro desafio, já que o feedback não é imediato. E esse é o ponto principal – o feedback, a aprovação ou reprovação.

Nesse aprender a ser mais vulnerável tenho percebido como passo a maior parte do meu tempo protegendo uma imagem de mim mesmo, gastando caminhões de energia pra isso, pra ser aceito, aprovado, e assim acreditar que devo continuar gastando tanta energia com isso. E toda minha sensibilidade é direcionada para fora, para entender como receber a aprovação de cada outro, para conseguir o que quero - e são tantas imagens diferentes pra se proteger, uma loucura! Mesmo escrevendo agora, me pergunto. O que quero com esse texto, aprovação? Talvez mais uma armadilha pra mim mesmo, mas mesmo se for assim , virão aprendizados.

Lógico que percebo isso em praticamente todos os estudantes por aqui, mas isso não importa, pois me espelham continuamente e assim posso ir soltando cada vez mais. O grande ganho que estou absorvendo, é uma abertura pra ver o outro, e sentir uma comunhão por detrás de tantas máscaras. Aprendendo que minhas máscaras estão sempre presentes mas que posso parar de viver em função delas - a máscara do bom menino perfeito e bonzinho, máscara do conquistador sensível, máscara do buscador espiritual, a do homem sério provedor, a do justiceiro social e assim vai, sem fim.



E me desgrudando dessas máscaras posso ver o outro por detrás das máscaras também, mesmo que o outro esteja totalmente identificado. E é nesse lugar que deixo de ser dois, eu e o outro. Nesse lugar posso me encontrar com o outro e comigo mesmo. Mesmo sem palavras, sem gostar ou deixar de gostar, simplesmente perceber o que é. Ou seja, a responsabilidade é totalmente minha, me desapegar das minhas máscaras é tarefa minha e somente minha.

Na prática durante os últimos dias tenho tomado muita “porrada” quando tento me segurar no padrão antigo, me escondendo por detrás de máscaras – pois tudo que incomoda aqui é incentivado a se expressar diretamente. Quando tento mudar algum outro que me incomoda, todas minhas defesas ficam evidentes. E quando me coloco vulnerável, mesmo com todos os medos de uma ferida aberta, o outro de verdade fica evidente, e há um encontro além das expectativas.

Esta é uma nova possibilidade de levar esse aprendizado para minha vida além das fronteiras de um centro de meditação e de práticas explícitas. Continuando a caminhada para além do medo, mesmo com todos os medos do mundo.

domingo, 12 de julho de 2009

A Partida - ouvindo o silêncio


Sabe quando já ficou claro que uma determinada atitude já não se sustenta mais, e ainda não existe uma nova atitude consolidada no lugar da antiga?
Aquela sensação de estar numa daquelas pontes entre montanhas, com o desfiladeiro abaixo centenas de metros, onde qualquer vento já desestabiliza o andar?
É inseguro até mesmo falar desse caminhar instável quando apenas vislumbres do outro lado são intuidos. É possível olhar pra trás e ver os pontos de apoio, o antigo que dá apoio a estrutura. Mas o peso vai se deslocando para um novo lugar de sustento, conforme se caminha adiante.

Uma atitude onde sinto essa transição é a atitude perante o fazer. Cresci aprendendo e sendo educado para encarar o fazer a partir do controle: eu quero, eu decido, eu controlo, eu faço, eu colho os resultados. Esse eu independente se esforça, se sacrifica e recebe sua recompensa. Praticamente todas as provas do mundo sempre disseram que esse modelo funciona - luntando, competindo, se sacrificando, eu me realizo.

Mas um incômodo vem surgindo, de forma quase espontânea passei a intuir, sentir, absorver uma nova possibilidade: o deixar que seja feito, o abrir espaço para que um algo novo surja. Um questionamento profundo em relação ao fazer vem praticamente rasgando camadas de condicionamento.
Antes era por exemplo uma atitide de esforço trabalhando no mercado financeiro, para garantir meu sustento, meu conforto, meus ideais de casamento feliz, família, filhos e uma aposentadoria tranquila. Um movimento constante em relação à um futuro pessoal de auto-estima e paz, que sempre escapava pois era sempre futuro.
Também foi por exemplo a cobrança de ter que fazer algo pelo mundo, me juntar com outros que queiram mudar o que vemos, nem que fosse a partir da culpa. Todos juntos sofrendo, se estressando e tentando controlar as peças para um mundo melhor e em paz.

Seria realmente possível contruir um mundo de felicidade e paz a partir de uma atitude cheia de expectativas, controlando tudo e todos para que essas se realizem? Seria possível a partir de uma atitude de luta e esforço em relação ao mundo à minha volta? Perguntas como essas vem surgindo de forma inocente e crescendo em número e profundidade.

Lá estava a ponte de cabos semi-soltos, balançando à minha frente. E nessa ponte venho caminhando. Em alguns momentos parece um suicídio soltar o controle, parece ser um ato que ameaça a minha sobrevivência e ameaça as idéias de muitos à minha volta. Continuo nessa ponte, com muitos medos ao meu redor, mas quanto mais percebo onde estou, mais posso apreciar a vista, mais floresce uma confiança em algo que inclui tudo ao redor.

Um dos últimos filmes que assisti, "A Partida", traz alguns simbolismos fortes dessa passagem, dessa transição. Um filme japonês, que traz a força do silêncio, da comunicação não-verbal, do sentir.
Um jovem violoncelista do interior do país se esforçara para ter um lugar numa orquestra de Tokyo. Ficou chocado quando a orquestra em que havia conseguido o posto foi dissolvida.
Nesse momento lá estava a ponte bamba à sua frente, instável, insegura e sem nehuma garantia de levá-lo ao outro lado.
O bonito do filme é assistir a caminhada dele pela ponte, como um samurai, sendo o principal apoio a sua própria verdade - voltar para o interior, aceitar um emprego sem saber exatamente do que se tratava, fazer uma tarefa rejeitada por quase todos. A volta para o interior foi uma volta para si mesmo, um caminho para o sentir, para uma verdade independente de tantas crenças pessoais e coletivas, independente de tantos gostos e aversões.
O filme trata da morte, do corpo físico, mas principalmente da morte de um paradigma. A partida de um modelo para um novo, onde o medo pode dar lugar a talentos antes desconhecidos, a rejeição pode dar lugar à compreensão, onde o futuro pode ser um lugar que já existe agora.



Olhando dessa ponte já vejo que é possível soltar com mais tranquilidade meus planos futuros de sucesso e felicidade. Já vejo e sinto com mais frequencia que a paz existe somente agora, mesmo que muitos digam que não, me digam que está lá do outro lado da ponte, bem distante, onde só se chega com muito esforço e sacrifício.
Me inspiro no personagem japonês do filme, na coragem, na dedicação carinhosa, na possibilidade de ouvir a voz do silêncio, da verdade, mesmo com todos os medos do mundo girando ao redor. E vou percebendo o meu novo ponto de apoio, não no outro lado da ponte, mas num lugar muito profundo, aqui dentro.

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