Todos direitos desta entrevista estão reservados.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Eckhart Tolle: entrevista Janeiro 2010
Todos direitos desta entrevista estão reservados.
domingo, 18 de outubro de 2009
Só para estar junto
Estar vivo de verdade, é caminhar como um equilibrista, é se perceber vulnerável a cada momento.
Estar vivo é muito delicado, é raro, e vai muito além de perambular pelo mundo.
Envolve aprender a estar só, para estar junto. Inclui ser sensível, com todos os poros, em contato com uma força que existe como pano de fundo.
Sabemos que estamos vivos quando não há compromisso algum que vá além da nossa verdade, de nossa ética mais profunda. Sabemos que estamos no limite do viver quando a abundância toma lugar da percepção de falta.
Falo da experiência de um vivo-morto, no aprendizado do ser só, no meio de tantas lindas companhias. Que está aprendendo que qualquer compromisso no mundo, é somente uma suave consequência do compromisso com a vida, que pulsa por detrás de cada movimento.
Vivo-morto pelas muitas partes, células, órgãos a serem ressucitados e realinhados com tal pulsar.
Vivo pois já se percebe como parte desse fluxo além do tempo.
Morto quando acredita que é dependente, quando compromete sua verdade em troca de algumas migalhas.
Vivo ao sentir uma alegria por detrás de tantas emoções que flutuam ao longo de um só dia. Morto quando se finge de independente, e se coloca frio perante o outro com medo de depender.
Vivo ao abrir os olhos no meio do mundo e encontrar um outro em sua nudez.
Morto ao temer a própria vulnerabilidade e fugir da beleza por detrás da dor.
Estar só é a delicadeza de encontrar um outro "solitário". A solidão nada tem a ver com os papéis que representamos. Estar só é um estado, uma visão de mundo. Estar só é ir ao encontro de si para encontrar o outro por inteiro. É preciso se ver só para se ver conectado realmente.
Aqui solto palavras, de quem nada para cruzar o rio novamente. De quem já se achou vivo, já se viu morto, e se esforça para abrir os olhos no meio da correnteza.
Falo aqui de um lugar suave, em movimento. De um lugar conectado com uma força, que liberta, que permite tamanha sensibilidade e dor. Tamanha sensibilidade e encantamento por esses mundos afora e adentro.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A Gravidade
Assim passamos a acreditar. Desde "que tudo começou", temos a idéia da criação como algo externo, uma lei que limita no tempo e espaço. Provavelmente a saída de Adão e Eva do paraíso, a "queda", é uma metáfora para a crença enraizada na "lei da gravidade".
Assim vamos levando nossas vidas. Sempre há uma razão externa, um motivo fora de mim que me impede de alçar vôos, de dar saltos cada vez mais amplos. E falamos que são motivos graves: a falta de dinheiro, doença na família, violência na cidade. Enfim, a sempre presente lei da gravidade. Tudo fora me limita, tudo muito grave. Vamos nos apoiando em autoridades externas, em "Isaac Newtons" e levando a vida com v minúsculo.
Aqui brinco com uma metáfora. Talvez alguns honestos yoguis nem considerem isso uma metáfora, já que podem saltar com uma leveza extraordinária ou até mesmo levitar. Dizem que Jesus caminhou pelas águas. Uma leveza que foi sendo adquirida por um conhecimento de cada mínima parte do corpo físico, sutil, astral, sem nehuma mágica envolvida. Provavelmente a ciência ainda entenderá muitos desses fenômenos.
Auto-conhecimento parece ser a única saída para a verdadeira liberdade, para escapar da lei da gravidade, de milênios de condicionamento, dos graves motivos externos que reafirmam a impotência a cada momento, da impossibilidade de ir além do passado confirmado.
Já estava escrito no Oráculo de Delfos - quem lá ia, procurando uma resposta fora, deparava-se com a frase gravada nas rochas: "Conhece-te a ti mesmo".
E nessa caminhada para se conhecer é preciso muita vontade, já que as quedas são constantes, repetidas vezes, cada uma dando oportunidade para conhecer mais um canto antes não visto, mais um gancho onde os cabos da gravidade se prendem.
Aqui não falo em aprender a voar como uma águia, mas na possibilidade de olhar todo esse condicionamento do alto, de um lugar onde me observo de fora, e posso perceber onde as amarras se prendem em mim, o que ainda não quero soltar, que medos me levam a fortalecer essa prisão.
Há alguns poucos anos atrás, veria esse texto como fruto da loucura de alguém, ou de uma ingenuidade extrema: como um ser humano pode ir além das leis do mundo?!
Talvez me tornei um "louco" perante o status quo, talvez inocente ao ponto de acreditar que posso voar, além das limitações que sempre acreditei.
Talvez escrevo somente para me convencer dessa possibilidade, onde essa delicada e ainda frágil percepeção ainda necessite de reafirmações, para que logo eu possa ver como uma parte inteira em mim, quem sou.
Sigo escrevendo para mim e para quem fizer algum sentido.
Voar é possível, com os pés enraizados no solo e soltando folhas e frutos ao vento.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O grupo: seu poder e seus desafios
Já quando nascemos caímos num grupo, numa família, que estruturada ou não, já é o primeiro e provavelmente mais influente círculo de pessoas, na vida de cada um que passa por esta experiência humana.
Pai, mãe, avós, irmãos mais velhos, tios, todos foram me servindo como professores, me ensinando como falar, comer, me comportar, como fazer parte desse grupo no qual estava chegando.
Fui crescendo e pude experienciar fazer parte de novos grupos, na escola, no clube, no acampamento, no prédio em que morava, e com cada grupo fui aprendendo novas maneiras de fazer parte. Nesses primeiros, como vieram a mim muito pelas escolhas dos meus pais, as maneiras e regras eram bem similares às que eles haviam me ensinado, e na maior parte do tempo, pareciam coerentes.
Mesmo durante a adolescência e após, continuei traçando um caminho onde as escolhas estavam muito coladas às da infância - a primeira formação na universidade, por exemplo, foi exatamente a mesma do meu pai. As formas que eu representava para me sentir aprovado foram seguindo um curso quase homogêneo, logicamente com dificuldades crescentes, pois os grupos eram cada vez mais abertos e porosos. A faculdade, mesmo sendo de engenharia, era um mundo muito mais aberto do que a escola judaica que eu frequentara.
Hoje consigo ver com mais clareza que a cada novo grupo, muitas de minhas antigas maneiras de atuar para me sentir amado e aprovado, eram colocadas em cheque. A cada novo grupo eu precisava me flexibilizar para enxergar o ponto-de-vista do outro, lapidar minhas estratégias para ser parte com algum conforto.
E vieram muitos outros grupos, cursos fora do país e equipes de trabalho em diversas empresas, onde o processo continuava.
Em um certo momento ou período, vejo uma primeira mudança de atitude. Foi quando percebi que podia começar a escolher por mim, indo além das escolhas vindos dos grupos primais. Muitos vivem isso na adolescência, eu sinto que somente fui viver isso de verdade depois dos 25 anos, depois de algumas crises por doenças incômodas, morte na família e encontros com pessoas inspiradoras.
Esse é um marco importante pois dali foram surgindo desafios ainda maiores. Os novos grupos que fui escolhendo participar foram permeando os que eu já fazia parte. Me desligando de alguns, me aproximando de outros. Vieram grupos de auto-conhecimento, de terapia, nova faculdade - de psicologia, comunidades na Europa, India, Israel e Brasil, rede de empreendores sociais e novos círculos de trabalho, cada vez mais conectados e abertos.
Um caminho que me desafiava a ser cada vez mais flexível, a romper com antigos padrões que já não me alimentavam mais, a ser cada vez mais quem eu escolhia ser.
Interessante, olhando para todos esses processos, é perceber a sutileza do ato de escolher. Nesse processo que continuo vivendo, quando penso estar escolhendo por mim, vejo que muitas vezes ainda estou no padrão de escolher para ser aceito e amado pelo grupo ao redor, pelo medo de me sentir abandonado. É sutil pois os grupos vão se tornando mais amplos e mais diversos, e eu cada vez mais flexível - e a flexibilidade é um grande instrumento para ser aprovado, e me abandonar em tanta flexibilidade.
Agora sinto nesse período um novo marco, uma nova transição que acontece agora. Parece que para iniciar esse novo ciclo precisei voltar vivenciar nos últimos meses a experiência de um grupo fechado, no caso um grupo de meditação com uma mestra como autoridade máxima. Nesse grupo, onde o trabalho está focado na responsabilidade das escolhas a cada momento, no sentir e vivenciar sua própria experiência, a minha flexibilidade adquirida já não gerava os mesmos resultados. Minhas estratégias para ser aceito foram sendo desmascaradas com mais força - inclusive esta semana, uma das mestras, autoridade nesse grupo, leu meu blog e disse que era mais uma ferramenta minha para ser amado e querido.
Caminhada delicada essa que surge. Fazer parte de grupos, muitos de amigos de longa data, com mais responsabilidade, alerta ao abandono de mim quando esqueço dessa fonte de amor abundante aqui dentro. Um novo marco pois é como se eu tivesse tomado uma dose do veneno da cobra como soro para cura - que bom que foi na dose certa! A autoridade externa me acordando para que eu encontre a autoridade em mim mesmo, sem abusos.
Um novo movimento onde não sinto que preciso abandonar os grupos para continuar crescendo e me responsabilizando, mas tenho sempre essa liberdade de abraçar outros que me tragam novas possibilidades de crescimento.
Caminhada sutil pois os grupos, como minha primeira família, passam a ser vistos como um grande reflexo de quem sou, me apontando o que ainda não consigo ver. Sutil, pois cada um em cada grupo também falha em encontrar a amor por si e projeta fora, em encontrar a autoridade por si e projeta fora.
E assim vou pintando com novas cores que surgem, com mais clareza e discernimento, sabendo que posso fazer parte de grupos e escutar autoridades externas. Que posso abraçar o melhor do que vejo fora, e que o caminho é para dentro sempre, além de tantas projeções.
E escolho continuar escrevendo, mesmo que ainda seja uma forma de ser amado, pois por enquanto, sinto que me amo quando assim faço, e é parte essencial da minha liberdade mesmo fazendo parte de tantos grupos.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Tempo tempo tempo...
Essa questão do tempo tem estado muito presente, o tempo como uma oportunidade pra rever, transformar, fazer diferente. Quantos ciclos já não vivi fazendo tudo igual, seguindo os mesmos padrões, me rendendo aos mesmos medos.
Tudo bem, já me aproveitei de muitas oportunidades para mudar, crescer, me abrir pro novo, mas é incrível perceber que essa possibilidade é constante, a cada instante. O tempo é como um grande instrumento que deixamos guardado na caixa de ferramentas para um momento mais propício e confortável.
O aprendizado nos últimos meses tem sido basicamente esse: se eu não uso o tempo com todo o potencial que ele me oferece, viro refém dessa ferramenta obsoleta. Entro assim na roda do condicionamento por padrões do passado e adiando a abundância e felicidade para um momento futuro, quando "estiver pronto". E usar o tempo tem toda sua sutileza, envolve ser vulnerável, estar fora do controle...
Se o tempo pudesse falar ele diria claramente: "meu único papel é te ensinar a me soltar, soltar essa idéia do que já fui e do que serei". Nesse exato momento, o tempo é somente uma idéia, onde só o momento existe, o que é, com todas suas potencialidades, agora.
Parece livro de auto-ajuda, mas é mesmo. E agora nessa lua nova me disponho a me ajudar, a ouvir a voz mais profunda do tempo, esse grande pai. E me disponho a perceber a beleza de cada momento, de cada encontro, com a noite, com a chuva, com o gato da vizinha, com as flores no quintal, das cores e cheiros. Me abro pra possibilidade de escutar cada um sem tantos vícios e expectativas, e me desapegar desse grande professor, autoridade mundial, o Tempo.
domingo, 26 de julho de 2009
Além dos medos
A principal força que percebo aqui é que não existe teoria, mas somente experiência, explícita! Tudo o que acontece aqui é uma oportunidade para me conhecer, ir mais profundo. E posso dizer que é arrebatador – quanto mais me exponho, meus pensamentos e sentimentos, mais recebo de volta. Quanto mais insisto em continuar nas minhas elaborações mentais, mais sou empurrado a me conectar com o que sinto. É como aprender uma nova língua para perceber o mundo, sair da cabeça para o coração – com muito choro e muita raiva envolvida. Contrações e expansões.
Por isso resolvi escrever agora, pois aqui nesse centro existe um “lugar seguro” para me expor, mas me expor aqui nesse blog é um outro desafio, já que o feedback não é imediato. E esse é o ponto principal – o feedback, a aprovação ou reprovação.
Nesse aprender a ser mais vulnerável tenho percebido como passo a maior parte do meu tempo protegendo uma imagem de mim mesmo, gastando caminhões de energia pra isso, pra ser aceito, aprovado, e assim acreditar que devo continuar gastando tanta energia com isso. E toda minha sensibilidade é direcionada para fora, para entender como receber a aprovação de cada outro, para conseguir o que quero - e são tantas imagens diferentes pra se proteger, uma loucura! Mesmo escrevendo agora, me pergunto. O que quero com esse texto, aprovação? Talvez mais uma armadilha pra mim mesmo, mas mesmo se for assim , virão aprendizados.
Lógico que percebo isso em praticamente todos os estudantes por aqui, mas isso não importa, pois me espelham continuamente e assim posso ir soltando cada vez mais. O grande ganho que estou absorvendo, é uma abertura pra ver o outro, e sentir uma comunhão por detrás de tantas máscaras. Aprendendo que minhas máscaras estão sempre presentes mas que posso parar de viver em função delas - a máscara do bom menino perfeito e bonzinho, máscara do conquistador sensível, máscara do buscador espiritual, a do homem sério provedor, a do justiceiro social e assim vai, sem fim.

E me desgrudando dessas máscaras posso ver o outro por detrás das máscaras também, mesmo que o outro esteja totalmente identificado. E é nesse lugar que deixo de ser dois, eu e o outro. Nesse lugar posso me encontrar com o outro e comigo mesmo. Mesmo sem palavras, sem gostar ou deixar de gostar, simplesmente perceber o que é. Ou seja, a responsabilidade é totalmente minha, me desapegar das minhas máscaras é tarefa minha e somente minha.
Na prática durante os últimos dias tenho tomado muita “porrada” quando tento me segurar no padrão antigo, me escondendo por detrás de máscaras – pois tudo que incomoda aqui é incentivado a se expressar diretamente. Quando tento mudar algum outro que me incomoda, todas minhas defesas ficam evidentes. E quando me coloco vulnerável, mesmo com todos os medos de uma ferida aberta, o outro de verdade fica evidente, e há um encontro além das expectativas.
Esta é uma nova possibilidade de levar esse aprendizado para minha vida além das fronteiras de um centro de meditação e de práticas explícitas. Continuando a caminhada para além do medo, mesmo com todos os medos do mundo.
domingo, 12 de julho de 2009
A Partida - ouvindo o silêncio

Sabe quando já ficou claro que uma determinada atitude já não se sustenta mais, e ainda não existe uma nova atitude consolidada no lugar da antiga?
Aquela sensação de estar numa daquelas pontes entre montanhas, com o desfiladeiro abaixo centenas de metros, onde qualquer vento já desestabiliza o andar?
É inseguro até mesmo falar desse caminhar instável quando apenas vislumbres do outro lado são intuidos. É possível olhar pra trás e ver os pontos de apoio, o antigo que dá apoio a estrutura. Mas o peso vai se deslocando para um novo lugar de sustento, conforme se caminha adiante.
Uma atitude onde sinto essa transição é a atitude perante o fazer. Cresci aprendendo e sendo educado para encarar o fazer a partir do controle: eu quero, eu decido, eu controlo, eu faço, eu colho os resultados. Esse eu independente se esforça, se sacrifica e recebe sua recompensa. Praticamente todas as provas do mundo sempre disseram que esse modelo funciona - luntando, competindo, se sacrificando, eu me realizo.
Mas um incômodo vem surgindo, de forma quase espontânea passei a intuir, sentir, absorver uma nova possibilidade: o deixar que seja feito, o abrir espaço para que um algo novo surja. Um questionamento profundo em relação ao fazer vem praticamente rasgando camadas de condicionamento.
Antes era por exemplo uma atitide de esforço trabalhando no mercado financeiro, para garantir meu sustento, meu conforto, meus ideais de casamento feliz, família, filhos e uma aposentadoria tranquila. Um movimento constante em relação à um futuro pessoal de auto-estima e paz, que sempre escapava pois era sempre futuro.
Também foi por exemplo a cobrança de ter que fazer algo pelo mundo, me juntar com outros que queiram mudar o que vemos, nem que fosse a partir da culpa. Todos juntos sofrendo, se estressando e tentando controlar as peças para um mundo melhor e em paz.
Seria realmente possível contruir um mundo de felicidade e paz a partir de uma atitude cheia de expectativas, controlando tudo e todos para que essas se realizem? Seria possível a partir de uma atitude de luta e esforço em relação ao mundo à minha volta? Perguntas como essas vem surgindo de forma inocente e crescendo em número e profundidade.
Lá estava a ponte de cabos semi-soltos, balançando à minha frente. E nessa ponte venho caminhando. Em alguns momentos parece um suicídio soltar o controle, parece ser um ato que ameaça a minha sobrevivência e ameaça as idéias de muitos à minha volta. Continuo nessa ponte, com muitos medos ao meu redor, mas quanto mais percebo onde estou, mais posso apreciar a vista, mais floresce uma confiança em algo que inclui tudo ao redor.
Um dos últimos filmes que assisti, "A Partida", traz alguns simbolismos fortes dessa passagem, dessa transição. Um filme japonês, que traz a força do silêncio, da comunicação não-verbal, do sentir.
Um jovem violoncelista do interior do país se esforçara para ter um lugar numa orquestra de Tokyo. Ficou chocado quando a orquestra em que havia conseguido o posto foi dissolvida.
Nesse momento lá estava a ponte bamba à sua frente, instável, insegura e sem nehuma garantia de levá-lo ao outro lado.
O bonito do filme é assistir a caminhada dele pela ponte, como um samurai, sendo o principal apoio a sua própria verdade - voltar para o interior, aceitar um emprego sem saber exatamente do que se tratava, fazer uma tarefa rejeitada por quase todos. A volta para o interior foi uma volta para si mesmo, um caminho para o sentir, para uma verdade independente de tantas crenças pessoais e coletivas, independente de tantos gostos e aversões.
O filme trata da morte, do corpo físico, mas principalmente da morte de um paradigma. A partida de um modelo para um novo, onde o medo pode dar lugar a talentos antes desconhecidos, a rejeição pode dar lugar à compreensão, onde o futuro pode ser um lugar que já existe agora.
Olhando dessa ponte já vejo que é possível soltar com mais tranquilidade meus planos futuros de sucesso e felicidade. Já vejo e sinto com mais frequencia que a paz existe somente agora, mesmo que muitos digam que não, me digam que está lá do outro lado da ponte, bem distante, onde só se chega com muito esforço e sacrifício.
Me inspiro no personagem japonês do filme, na coragem, na dedicação carinhosa, na possibilidade de ouvir a voz do silêncio, da verdade, mesmo com todos os medos do mundo girando ao redor. E vou percebendo o meu novo ponto de apoio, não no outro lado da ponte, mas num lugar muito profundo, aqui dentro.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
A deficiência eficiente
E logo abaixo coloquei alguns exemplos para saber do que eu mesmo estava falando, como: "criando novas possibilidades aos cegos, pode-se criar novos intrumentos de visão para os "cegos" de sensações e percepções", ou "criando novas possibilidades aos mudos e surdos, criamos novas possibilidades aos que são "mudos" de expressão".
Achei interessante a frase que tinha escrito, me trouxe uma certa clareza, um entendimento mais sutil daquelas palavras.
A maior parte do tempo tentamos nos afastar das nossas chamadas deficiências e das dos outros, pois incomodam, já que são limitantes para atuar no mundo, para transformar o que está lá fora.
E damos tanta atenção para o que está lá fora, nos identificamos tanto com o que vemos e ouvimos, que qualquer deficiência torna-se um peso, torna-se também parte dessa identidade.
Seja física, emocional ou psicológica, provavelmente a maior deficiência seja a própria identificação: os meus dramas, minhas limitações, meus traumas e consequentemente a projeção para o drama do outro, as limitações do outro. Assim eu me torno minha deficiência, e o outro a dele.
E se o que chamamos de deficiência não tivesse mais dono, se não fosse mais a minha ou a dele, dela, simplesmente fosse uma grande deficiência, como que um grande corpo com milhões de possibilidades de deficiências. Um corpo através do qual qualquer um poderia se identificar com uma parte dele e dizer que é aquilo. Um corpo que já existe há muito tempo, há centenas de gerações, disponível para essa identificação.
E se fossem tantas gerações se identificando com esse grande corpo, que já estivéssemos completamente condicionados a fazer o mesmo?
E se de repente, de um segundo para o outro, percebessemos, agora, que não somos esse corpo, que podemos nos desligar dele? Que podemos olhar e sentir esse grande corpo sabendo que não somos isso? Talvez a primeira pergunta que viria a seguir, seria então "quem somos, quem sou eu?". Só essa pergunta já vale a pena a experiência.
E essa grande deficiência, ou a de cada um na visão identificada, seria assim utilizada para o acordar de todos, acordar para uma nova maneira de ser e estar, provavelmente menos deficiente, menos dramática e mais em paz.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Re-identificando
Imagine os campos, arvores, florestas, bichos, vivendo nas margens desse rio.
Imagine alguns grupos de pescadores, agricultores locais, que pescam , plantam e colhem, vivem a partir da vida que esse rio traz. Se alimentam, trocam, vendem e compram em harmonia.
Imagine que um grupo de pessoas instale um fábrica, uma unidade de produção na margem do rio.
Imagine que essa fábrica utilize alguns insumos tóxicos e a água limpa do rio. E despeje boa parte desses elementos tóxicos de volta nas águas, que seguem rio abaixo.
Imagine que esses elementos tóxicos cheguem até as árvores e bichos nas margens. Imagine que cheguem aos peixes, aos alimentos cultivados, aos pescadores e agricultores.
Imagine que esses pescadores e agricultores, sem peixes, doentes, já não possam exercer suas atividades com antes.
Imagine que alguns desses ex-pescadores, agricultores, passem a trabalhar na fábrica. Outros permanecem sem trabalho. Que aos poucos aquela cultura local vá se perdendo, que as relações vão se desintegrando, que o consumo de bebida aumente, adultos sem função, crianças sem visão.
Imagine que o desejo de comprar uma tv suba exponencialmente nessa "comunidade". Que ter o novo produto, o novo tênis, a nova boneca, seja a máxima local. Imagine que o dinheiro seja escasso, que os valores vão se perdendo, o ter passe a ser mais importante que viver. Que o rio torna-se somente um lixão me movimento.
Só imagine.
Agora imagine uma pequena mudança: os donos e gerentes da fábrica devem seguir uma nova regra. A água a ser utilizada na produção deve ser captada abaixo ( a jusante) do local onde os dejetos são despejados.
Imagine que a água com toxinas não servem para a fábrica continuar com a sua produção. Essa é fácil de imaginar. Imagine que eles vão precisar achar uma nova solução.
Imagine que os donos da fábrica entendam assim que o rio começa antes e continua depois dessa fábrica. Que a fábrica não é um elemento separado do todo onde está.
Imagine que a percepção de "quem sou", a princípio uma fábrica, se amplie para todo o rio, antes e depois dessa fábrica. Imagine que esse "eu" se amplie para toda a mata e bichos nas margens do rio. Que inclua os peixes, pescadores, agricultores, adultos e crianças.
Imagine que que esse "quem sou" continue se expandindo, pra todas as relações, para os clientes, parceiros, para todos diretamente e indiretamente envolvidos, para as matas vizinhas, rios, mares.
Dá pra imaginar?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Pausa para inocência
Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Voltando da bolha

Os últimos dias foram cheios no Schumacher College e nas redondezas. Saindo da bolha, uma força que praticamente impediu de me conectar com qualquer assunto fora do que estava vivendo aqui.
A sensação agora de estar sendo praticamente expulso da bolha, como que sendo colocado pra fora da casca confortável, do ambiente "controlável". E está sendo ótimo!
Foram duas semanas com um grupo de empreendedores de diversos países, iniciando ou desenvolvendo projetos e negócios. De alimentos a imigrantes, de maternidade a crianças, de construção a flores, focos diferentes mas todos voltados para o desenvolvimento de conexões reais entre as pessoas, e com o planeta Terra, esse organismo vivo.
Um grupo que me ensinou muito sobre quem sou e onde estou, que me encheu de esperança, de novas possibilidades, de confiança.
Num dos pontos altos do curso, na sexta-feira passada, tivemos o privilégio de estar com uma pessoa incrível durante o dia todo, Tim Macartney, um ex-jardineiro que hoje dirige um centro de liderança com clientes que vão de crianças a altos executivos de multinacionais. Um grande presente de aniversário. Diria que não vi nada de novo, nada que nunca tinha lido, pensado ou mesmo vivido - mas o contexto, a presença experienciada, me trouxe muito conforto e paz no caminho, uma certa tranquilidade ao perceber com clareza que liderar é simplesmente ser, verdadeiramente.
Falar sobre liderança com um grupo de empreendedores ávidos por desenvolver seus sonhos na prática, dentro de uma escola inglesa onde a cultura do pensar praticamente deixa em segundo plano a possibilidade de sentir (mesmo sendo uma escola com objeitvos holísticos) , poderia se tornar somente mais um daqueles guias sem vida, um daqueles passo-a-passo para se moldar, se inspirando nos grandes líderes do passado.
Não falamos de nenhum líder, não seguimos nenhum modelo de liderança durante o dia. Não montamos juntos uma estrutura de um plano de negócios durante o encontro. Simplesmente falamos de nossos medos, do que escondemos debaixo do tapete, dos nossos "wild dogs" - os cachorros selvagens da nossa personalidade que quando reprimidos reaparecem de formas sombrias.
Foi um dia onde o grupo se aproximou, onde as idealizações foram perdendo força, onde a honestidade consigo mesmo era a única coisa que servia pra se comunicar.
A partir desse lugar pudemos investigar mais a fundo nossos projetos nos dias que se seguiram. Investigar os principais dons, os próximos passos, organizar as idéias, apresentar pra diversos públicos, realinhar expectativas. E principalmente, pelo menos no meu caso, abrir mão do controle, da propriedade individual do projeto. Entendendo com mais clareza agora, que só serei feliz desenvolvendo um projeto aprendendo a receber amigos, mentores, parceiros, investidores e profissionais nesse espaço de desenvolvimento. Pessoas que estarão se comprometendo com o mesmo sonho, co-criando.
Hoje, aqui em Dartington na região de Devon, o céu está limpo, um azul brilhante, folhas cobertas pelo gelo, um silêncio no ar, uma sensação de espaço aberto, de nvoas possibilidades. Agradeço essa terra linda, aos encontros, aos amigos de hoje e sempre.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
De Londres para Totnes, três horas de trem. Um dia de viagens, conexões, saindo bem cedo de San Giuliano, Toscana, Itália.
Posso dizer que senti a diferença no ar ao sair do avião em Londres, o rosto do oficial na alfândega, os olhares e passos rápidos – interessante como pode-se perceber facilmente as diferentes freqüências de energia que vibram em cada lugar.
E essa tem sido uma viagem com destinos bem distintos, culturas, passados e momentos que vibram cada um da sua maneira, com sua leveza ou densidade.
Talvez essa seja a viagem (e não é a primeira como vários de vocês sabem!) em que me sinto mais atento, mais presente, e percebendo essa presença crescer a cada dia – ao menos é o que parece.
Já se passaram 3 semanas desde que saí de São Paulo com o objetivo de aprofundar um pesquisa sobre diferentes formas e modelos de negócios/organizações envolvendo alimentos, cultivo da terra e comunidades, enfim, para abrir oportunidades de insights para os meus próximos passos.
Passei pelo Egito, onde pude conhecer pessoalmente a Sekem, um negócio de cultivo, produção e marketing de produtos orgânicos.

Na verdade um sonho que começou 30 anos atrás com o fundador da organização, que transformou áreas desérticas em férteis, modificou a visão do uso de agrotóxicos no país e construiu um negócio e uma fundação integrada com mais de 2000 pessoas envolvidas diretamente. Tive a oportunidade de conversar com parceiros, com o presidente da empresa, embora pouco contato com os funcionários e comunidade local. Mas o Egito merece um capítulo à parte num outro dia.
Estive também na Holanda, o segundo grande choque da viagem ao chegar no aeroporto vindo de Cairo (o primeiro grande choque obviamente foi a chegada no Egito). Em Amsterdam vivi um momento de intensa liberdade, como se já conhecesse aquele espaço, aquele tempo – milhares de ciclistas, canais cortando a cidade, muita água, trazendo uma certa serenidade. Lá pude conversar com o cunhado de uma amiga, executivo de uma das grandes empresas de marketing de produtos orgânicos e naturais da Europa/EUA, uma conversa bem pragmática, bem no estilo dutsch, e muito importante naquele momento.
O próximo passo foi Londres, a sensação de estar no filme Blade Runners, com robôs-andróides andando a passos rápidos de um lugar ao outro, como cavalos com tapa-olhos puxando charretes. Ser recebido pela Duda, uma amiga brasileira foi bem confortador. Na Inglaterra fui conhecer o Schumacher College em Totnes (onde estou agora retornando para um workshop de 2 semanas) - a escola é um centro internacional para estudos de formas sustentáveis e integradas de vida, também uma comunidade onde todos participam das atividades do dia-a-dia como cozinhar, cuidar da horta e limpeza.
A parada seguinte foi o grande paraíso alimentar da Toscana na Itália. Que delícia aquelas montanhas, rios calmos, o azeite que amplia os sentidos, o ar puro e leve, e claro, a beleza das italianas. Reaprendi a gostar de vinho, comer carne artesanal preparada pelos locais, colhi azeitonas pela primeira vez, cuidei de vinhedos biodinâmicos, dormi dentro de uma fazenda e conheci algumas cooperativas, produtores e outros negócios com ingredientes locais. Um dos grandes presentes foi ser recebido pela Lee, uma alemã empreendedora na Toscana e EUA, apresentada por um amigo, Thomas. Um contato ia levando ao outro, a sensação de fazer parte de algo bem maior, onde trocar, dar e receber se tornam a mesma coisa. Fui para ficar 2 dias e estive por 7, só posso dizer que espero voltar logo mais.

E hoje, saindo do interior da Toscana, para Pisa, para Londres, para Totnes onde participo de um encontro de empreendedores de vários países elaborando, redefinindo seus projetos, negócios. Criando formas sustentáveis, de longo-prazo, com base na harmonia e integridade de todos envolvidos, pessoas, terra, água, ar, bichos, plantas.
E parece ser essa a palavra-chave desses últimos dias, o prazo, o tempo percebido. Quanto mais consigo expandir o tempo, o prazo do que é vivenciado agora, para trás e para frente (lembrando da minha amiga rabina, Luciana), mais presente estou, mais a presença é vivida através de mim. Quanto mais alongo a percepção do que trago do passado e do que projeto para o futuro, mais espaço deixo aberto para o que é agora. Mais o passado e futuro de fundem e criam algo novo.
E vou percebendo que acima de tudo, que pesquisas sobre organizações e negócios, suas estórias, os próximos passos potenciais, é um grande espelho do que vejo, penso e sinto. E vou aprendendo a me enxergar nisso tudo, integrando minha vontades, firmando as bases para construir algo que seja acima de tudo um espelho, cada vez mais claro, divertido e em paz.
sábado, 11 de outubro de 2008
Uma crise de valores
Estamos assistindo um momento de aflição no mercado financeiro, com bolsas de valores despencando no mundo todo e o medo tomando conta, principalmente de quem mais esperava ganhar com seus investimentos.
A questão que me coloco, e agora pra quem está lendo essas palavras, é exatamente em relação aos investimentos que temos feito. Temos escolhido investir onde há maior expectativa de ganho pessoal, de preferência, sem saber quem está perdendo enquanto ganhamos.
A bolsa de valores é o grande exemplo prático dessas escolhas que temos feito. Compramos uma ação sem saber quem está vendendo, quem está por trás, o que faz, suas necessidades - e vendemos da mesma forma que compramos. Sem vínculos com o negócio, com qualquer parte envolvida, sempre com o foco em ganhar mais. Não vejo problema em ganhar mais, o ponto aqui é porque estamos querendo ganhar sem querer ver as consequências das nossas escolhas.
Queremos ganhar sem sentir culpa, sem sentir a culpa de saber que alguém está se dando mal com minhas escolhas. Caso exista um vínculo com a outra parte, vou achar muito esquisito ver o outro perdendo para suprir minha necessidade de ganhar. Ganhar junto com o outro acaba nos parecendo algo tão distante quanto os times do Brasil e da Argentina ganharem juntos a final da Copa do Mundo.
Esses são os valores que temos escolhido afirmar e reafirmar. Ao invés de olhar para essa culpa e este medo, preferimos negar tudo isso. Escolhemos desconfiar em primeira mão, com medo de perder, e escolhemos nos separar e nos desvincular com culpa por ganhar.
Será que existe uma outra maneira de lidar com esse medo e essa culpa? Será que existe uma outra forma de escolhermos para irmos juntos, além dessas limitações?
A minha resposta é sim, existe uma outra maneira, e tenho aprendido essa possibilidade através das minhas escolhas nas relações de cada dia. Tenho percebido pessoas muito queridas escolhendo de outra maneira, e me inspiro nessas escolhas.
Cito aqui a crise financeira, mas a crise vai muito além do mundo da grana, a crise permeia todos valores, todas nossas escolhas. A maneira que temos escolhido não se sustenta mais, está cada vez mais difícil nos cegar para as consequências. Os custos ao negar são muito maiores que os ganhos percebidos, queira ver ou não.
Assisti ao filme “Ensaio Sobre a Cegueira” na semana passada, aquele baseado no livro do Saramago. Saí do filme com a plena sensação de que a confiança e o vínculo entre pessoas é a única solução para olharmos o medo sem ser dominado por ele. Podemos escapar juntos, ganhando juntos ou continuarmos cegos, perdidos uns dos outros e sofrendo (aos cegos de vista física, já aviso aqui pra evitar algum processo na justiça: a cegueira aqui é somente uma metáfora para nossa dificuldade de ver o que está realmente acontecendo, ok?).
Olhar o medo e a culpa de frente pode doer, trazer tristezas e raivas escondidas. Pode parecer um monstro enorme, mas não vejo outra maneira para ir além. E fazer isso juntos é a grande possibilidade de enxergar de outra forma, a possibilidade de realizar o milagre de voltar a enxergar.
Seja na relação paciente-terapeuta, num casal, num grupo de amigos ou numa empresa, cada um que passa a enxergar pode compartilhar com o outro e assim vamos aprendendo a confiar, criando vínculos mais fortes, percebendo que ganho sempre que o outro ganha, perco sempre que o outro perde.
Não estou dizendo aqui para todos darmos as mãos e assim vamos mudar o mundo. Falo aqui da responsabilidade de cada um, da minha e da tua, se assim quiser escolher agora. O mundo todo não precisa escolher junto comigo agora, mas tenho certeza que um amigo, um grupo ou quem sabe uma empresa toda escolhendo juntos facilita muito esse trabalho.
Esse trabalho é essencial se quisermos ver com os próprios olhos, se quisermos ir além da ansiedade sem fim, ir além desse medo de perder nossos antigos valores e crenças. Muitos vão dizer que é uma utopia, uma ingenuidade, mas prefiro experimentar na prática.
Aqui um cego escreve, mas um cego decidido a enxergar, decidido a me ver em cada um que cruza o meu caminho. Decidido a criar junto, novas formas de se relacionar, novos modelos de negócios, novas possibilidades de confiar e amar. E quem quiser ser responsável pela própria felicidade, que caminhemos juntos. Com o perdão pelas minhas dificuldades de enxergar e confiar.
sábado, 23 de setembro de 2006
Aterrisando (mas agora com todos acentos `´^~ !)

Traz confiança perceber que os encontros acontecem nos seus próprios tempos, encontros verdadeiros, sem pressa, sem euforia, reencontros que trazem aquela sensaçao de estar no lugar certo na hora certa.
Alguns momentos vem aquela vontade de sair ligando pra amigos, conhecidos, dizer que cheguei, que quero ver, quando nem mesmo cheguei.
Bonito voltar e ter tantas oportunidades de recomeçar, seja num ano-novo judaico, no acolhimento de pessoas muito queridas, num primeiro dia de primavera ensolarado, lendo um livro que trouxe da India, recebendo um e-mail de um amigo que ainda não sabe que já estou de volta, possibilidades que preenchem de gratidão.
É uma grande oportunidade voltar pra cidade onde sempre morei depois de alguns meses intensos em outras culturas, lugares, tempos. O condicionamento aflora em vários pontos e vêm a tona. Tudo aquilo que sempre fez parte do dia-a-dia, locais que morei, trabalhei, ruas que frequentei, amigos, familia, maneiras de se adequar ao ritmo da cidade, as diversas possibilidade de fuga e encontro de/com si mesmo, tudo isso vai mostrando com mais clareza aquela imagem que faço de mim mesmo.
Uma imagem bastante relacionada com a casca que foi se moldando pra viver ou sobreviver física e emocionalmente nesse lugar-espaço-tempo. A imagem de um André que precisa ser bem-sucedido, que deve seguir as regras e normas pré-estabelecidas com o mínimo de questionamento, o menino Melman que deve seguir sua religião/tradição e ser um bom menino a partir da moral descrita, o adolescente competitivo que deve ganhar medalhas e troféus, ser melhor e se ver através dessa comparação sem fim, o executivo que deve traçar estratégias pra sua carreira de sucesso, e até o buscador que precisa chegar em algum lugar onde outros não chegaram pra se sentir mais poderoso dessa forma.
O lugar em si tem um significado profundo pra mim, mas essas cascas todas puderam ser vistas em cada local que passei, em cada encontro, com um guru na India, uma menina simples no sul da França, um ciclista japonês na Jordania ou um soldado em Israel.
A oportunidade agora é de olhar novamente pra essas e novas cascas aqui, e acolher cada uma delas, nos encontros com amigos, familia, pessoas com quem já trabalhei, conversei, namorei, vivi. E ao acolher ir percebendo que não sou somente essas cascas, que posso também enxergar a beleza no "feio", que posso ter prazer no "desconforto", que posso ser um "bom" menino sem seguir a moral externa e até mesmo um "bom judeu" sem viver de acordo com as escrituras.
E por enquanto sigo escrevendo, enquanto me sentir um viajante nesse planeta, país, cidade, bairro, casa, quarto.
E aqui agradeço aos que vejo e aos que não vejo, esses mestres todos que proporcionam cada vez mais entender esse eu, esse Nós.
sexta-feira, 1 de setembro de 2006
Rios

Engracado perceber isso viajando e parando cada 3 dias num novo lugar, que me faz bem ficar em casa, me sentir em casa. Esse sentir-se em casa com certeza vai alem do lugar em si, mas o lugar que escolho pra estar pode facilitar muito esse encontro, mais em contato comigo, minhas emocoes, minhas vozes e ouvidos, e consequente/e com o lugar em si. Eh uma roda, um ciclo virtuoso que vai proporcionando escolher cada vez mais de acordo com esses ouvidos que vao se afiando.
Eh logico que me pergunto porque continuo seguindo de lugar em lugar. Quando chego num desses lugares que me levam pra esse espaco de conforto, porque nao fico por la? Ainda nao sei a resposta mas talvez nao conheco (ou reconheco) esse lugar, esse onde nao ha necessidade de vagar, de conhecer ouras maneiras de estar.
Mas vou seguindo, vendo com mais clareza que esse meu movimento constante nao eh necessario, que o movimento eh por si soh, como um rio que desce morro abaixo, que varre, flui e sempre vem de novas formas, novas ondas, seja mais raso ou mais profundo. E as vezes me sinto como uma barragem, tentando conter esse fluxo todo, fazendo um esforco enorme pra me convencer da importancia do meu movimento, quando esse movimento eh puro fruto do medo da inundacao, da agua tomando todos os campos.

E cada vez mais quero estar na beira do rio vendo e vivendo os diferentes mundos que ele traz a cada instante. Mergulhar, nadar, e voltar pra beira, olhar da outra margem, mergulhar de novo.
Falar mais com as aguas, ouvir suas estorias em cada bolha de ar, aprender com quem respira dessa forma natural onde as barragens sao somente temporarias e impermanentes.
E vou entre rios, caminhando pelas beiras de cada uma dessas cidades, e quem sabe me leve a beira de algum rio-amigo e me veja nadando nas aguas, ora rasas, ora profundas, essas aguas que julgava controlar algum dia atras.




