quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O grupo: seu poder e seus desafios
Já quando nascemos caímos num grupo, numa família, que estruturada ou não, já é o primeiro e provavelmente mais influente círculo de pessoas, na vida de cada um que passa por esta experiência humana.
Pai, mãe, avós, irmãos mais velhos, tios, todos foram me servindo como professores, me ensinando como falar, comer, me comportar, como fazer parte desse grupo no qual estava chegando.
Fui crescendo e pude experienciar fazer parte de novos grupos, na escola, no clube, no acampamento, no prédio em que morava, e com cada grupo fui aprendendo novas maneiras de fazer parte. Nesses primeiros, como vieram a mim muito pelas escolhas dos meus pais, as maneiras e regras eram bem similares às que eles haviam me ensinado, e na maior parte do tempo, pareciam coerentes.
Mesmo durante a adolescência e após, continuei traçando um caminho onde as escolhas estavam muito coladas às da infância - a primeira formação na universidade, por exemplo, foi exatamente a mesma do meu pai. As formas que eu representava para me sentir aprovado foram seguindo um curso quase homogêneo, logicamente com dificuldades crescentes, pois os grupos eram cada vez mais abertos e porosos. A faculdade, mesmo sendo de engenharia, era um mundo muito mais aberto do que a escola judaica que eu frequentara.
Hoje consigo ver com mais clareza que a cada novo grupo, muitas de minhas antigas maneiras de atuar para me sentir amado e aprovado, eram colocadas em cheque. A cada novo grupo eu precisava me flexibilizar para enxergar o ponto-de-vista do outro, lapidar minhas estratégias para ser parte com algum conforto.
E vieram muitos outros grupos, cursos fora do país e equipes de trabalho em diversas empresas, onde o processo continuava.
Em um certo momento ou período, vejo uma primeira mudança de atitude. Foi quando percebi que podia começar a escolher por mim, indo além das escolhas vindos dos grupos primais. Muitos vivem isso na adolescência, eu sinto que somente fui viver isso de verdade depois dos 25 anos, depois de algumas crises por doenças incômodas, morte na família e encontros com pessoas inspiradoras.
Esse é um marco importante pois dali foram surgindo desafios ainda maiores. Os novos grupos que fui escolhendo participar foram permeando os que eu já fazia parte. Me desligando de alguns, me aproximando de outros. Vieram grupos de auto-conhecimento, de terapia, nova faculdade - de psicologia, comunidades na Europa, India, Israel e Brasil, rede de empreendores sociais e novos círculos de trabalho, cada vez mais conectados e abertos.
Um caminho que me desafiava a ser cada vez mais flexível, a romper com antigos padrões que já não me alimentavam mais, a ser cada vez mais quem eu escolhia ser.
Interessante, olhando para todos esses processos, é perceber a sutileza do ato de escolher. Nesse processo que continuo vivendo, quando penso estar escolhendo por mim, vejo que muitas vezes ainda estou no padrão de escolher para ser aceito e amado pelo grupo ao redor, pelo medo de me sentir abandonado. É sutil pois os grupos vão se tornando mais amplos e mais diversos, e eu cada vez mais flexível - e a flexibilidade é um grande instrumento para ser aprovado, e me abandonar em tanta flexibilidade.
Agora sinto nesse período um novo marco, uma nova transição que acontece agora. Parece que para iniciar esse novo ciclo precisei voltar vivenciar nos últimos meses a experiência de um grupo fechado, no caso um grupo de meditação com uma mestra como autoridade máxima. Nesse grupo, onde o trabalho está focado na responsabilidade das escolhas a cada momento, no sentir e vivenciar sua própria experiência, a minha flexibilidade adquirida já não gerava os mesmos resultados. Minhas estratégias para ser aceito foram sendo desmascaradas com mais força - inclusive esta semana, uma das mestras, autoridade nesse grupo, leu meu blog e disse que era mais uma ferramenta minha para ser amado e querido.
Caminhada delicada essa que surge. Fazer parte de grupos, muitos de amigos de longa data, com mais responsabilidade, alerta ao abandono de mim quando esqueço dessa fonte de amor abundante aqui dentro. Um novo marco pois é como se eu tivesse tomado uma dose do veneno da cobra como soro para cura - que bom que foi na dose certa! A autoridade externa me acordando para que eu encontre a autoridade em mim mesmo, sem abusos.
Um novo movimento onde não sinto que preciso abandonar os grupos para continuar crescendo e me responsabilizando, mas tenho sempre essa liberdade de abraçar outros que me tragam novas possibilidades de crescimento.
Caminhada sutil pois os grupos, como minha primeira família, passam a ser vistos como um grande reflexo de quem sou, me apontando o que ainda não consigo ver. Sutil, pois cada um em cada grupo também falha em encontrar a amor por si e projeta fora, em encontrar a autoridade por si e projeta fora.
E assim vou pintando com novas cores que surgem, com mais clareza e discernimento, sabendo que posso fazer parte de grupos e escutar autoridades externas. Que posso abraçar o melhor do que vejo fora, e que o caminho é para dentro sempre, além de tantas projeções.
E escolho continuar escrevendo, mesmo que ainda seja uma forma de ser amado, pois por enquanto, sinto que me amo quando assim faço, e é parte essencial da minha liberdade mesmo fazendo parte de tantos grupos.
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Gostei muito desse texto Andre... obrigada, foi ótimo ler isso....
ResponderExcluirÉ muito lindo ver seus passos Dé, obrigado por compartilhar esta porta tão gigante para a liberdade. É muito amor por si mesmo deixar o conforto de seguir e se apoiar em autoridades externas.
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