Na edição de Janeiro, o artigo de capa da Prana Yoga Journal foi uma entrevista que fiz com Eckhart Tolle no final do ano passado. Compartilho aqui para quem ainda não teve a oportunidade de ler esta entrevista com ele em português, pois a revista já saiu das bancas. Infelizmente não tenho como trazer aqui todas as belas ilustrações do artigo.
Longo texto para um blog, mas vale a pena ler aos poucos.
VOCÊ, ECKHART TOLLE E O AGORA
POR ANDRÉ MELMAN
ILUSTRAÇÕES: EVERSON NAZARI
Foi com O poder do Agora que conheci o trabalho do alemão Eckhart Tolle, há sete anos. Trabalhando no mercado financeiro e praticante de Ashtanga Yoga, não me identifiquei. Julguei ser mais uma autoajuda para o mercado norte-americano e doei o livro um tempo depois.
Algumas outras experiências vieram. Viagem à Índia, contato com obras de J. Krishnamurti e Ramana Maharsi, retiros de meditação e uma nova prática de Yoga, mais ampla que asanas, foi surgindo dentro de mim e ao meu redor.
Em 2008, no Egito, comprei outro livro dele, Um novo mundo – O despertar de uma nova consciência. O preconceito sumiu. Era como uma continuidade dos ensinamentos de Ramana, em um novo contexto ainda mais próximo de mim. Escrevi um e-mail de agradecimento, dispondo-me a ajudar, de forma até inocente, no que fosse possível para trazer Eckhart ao País. Ele já era uma figura pop no mundo, tendo até conduzido um programa de seis semanas pela web com Oprah Winfrey, apresentadora norte-americana que o elegeu como seu guru. Vendeu mais de dez milhões de livros traduzidos para 33 línguas. Nasceu Ulrich e tornou-se Eckhart (nome de um mestre da Alemanha medieval) após uma epifania, aos 29 anos, que marcou o fim de uma vida infeliz. Foi pesquisador na Universidade de Cambridge e andarilho em Londres. Já viveu na Espanha, na Inglaterra e atualmente sua base fica no Canadá, mas passa a maior parte do tempo dando palestras pelo mundo.
A resposta de Eckhart ao meu e-mail foi simpática, mas não muito animadora: ele estava em retiro e sem planos para o Brasil.
Em uma conversa com a Greice (que trabalha nesta revista), sugeri que ela fizesse um artigo sobre Eckhart. Ouvi a melhor resposta: “Faça você!”. Foi o início de uma jornada para conseguir a primeira entrevista de Eckhart Tolle para uma revista brasileira. Meses e e-mails depois — ele é conhecido por não conceder muitas entrevistas —, recebi um contato, data e horário marcados para conversar com ele via Skype.
Foi uma surpresa ouvir a voz de Eckhart do outro lado. Esperava ao menos uma secretária intermediando. A conversa foi inesquecível. Ele ria com muita naturalidade de coisas que já deve ter repetido centenas de vezes — e estava mais presente e disponível que eu como entrevistador.
Olá.
Olá, sou André, da Prana Yoga Journal, Brasil.
Sim?
Você é o Eckhart Tolle?
Sim. Sou eu.
Quem bom te conhecer, te ouvir...
Bom ouvir você também! Como vai?
Estou bem, muito feliz e honrado por esta oportunidade.
Obrigado. Uma pergunta que tenho: muitas das pessoas que lêem a revista estão interessadas em espiritualidade? Talvez já tenham algum conhecimento ou estão trabalhando com si mesmas fisicamente, espiritualmente...
Sim. Você está correto. Acredito que suas palavras podem ser de muita ajuda para praticantes e professores aqui no Brasil.
Sim.
Posso te chamar de Eckhart?
Sim, claro, todos me chamam de Eckhart!
Eckhart, a sua época de infância e adolescência foi bem triste e sofrida, até os 29 anos de idade. Sob seu ponto vista hoje, você poderia ter agido de outra forma para reduzir sua dor?
Bem, até os 29 anos eu vivi em um diferente estado de consciência. Se, como criança ou um jovem adulto, eu estivesse no mesmo estado de consciência em que estou agora, claro que poderia lidar com os problemas externos e com minha própria mente, mas na época não era possível, pois eu estava em outro estágio de consciência, identificado com a minha mente. Até os 29 anos, minha mente era bem disfuncional, produzindo uma quantidade enorme de pensamentos negativos. Eu vivia em estados de depressão e contínua ansiedade. Foi somente aos 29 que ocorreu a separação entre a consciência maior de quem sou — o Eu Sou que vai além do eu pessoal — e o funcionamento da mente. Meu sofrimento era causado aparentemente por circunstâncias externas, mas primariamente pela minha própria mente. O sofrimento é sempre uma reação aos eventos externos.
Sobre a experiência aos 29 de idade, poderia contar?
Como eu descrevi na introdução do livro O poder do Agora, acordei no meio da noite, o que não era incomum, e me sentia extremamente ansioso e deprimido com a vida. Muitos pensamentos passando pela minha cabeça, meu corpo estava tenso e o sofrimento era intenso. De repente, um pensamento: eu não posso mais viver mais comigo mesmo... eu não posso mais viver mais comigo mesmo. Naquele momento aquele era somente mais um pensamento negativo, mas que disparou algo. Eu me distanciei daquele pensamento, e pude olhar para ele. Pareceu estranho quando olhei para aquele “eu não posso mais viver mais comigo mesmo”. Fiquei perplexo, pois nesse pensamento havia duas entidades — uma era o “eu” e outra era o “eu mesmo”, com a qual “eu” não conseguia mais viver (risadas). Pude ver uma divisão e me perguntei: eu sou um ou dois? Se não posso viver comigo mesmo, quem sou eu? Quem, ou o que é o “eu mesmo” (“myself”) com quem não posso viver? Este último pensamento foi muito importante, pois depois deste, eu não consegui uma resposta no nível do pensamento, conceitual.
Mas uma resposta mais profunda surgiu, e nessa resposta percebi quem eu era, mas não poderia explicar. Aquele eu infeliz não era quem eu era realmente. Eu era a consciência mais profunda por detrás dele. Naquele momento ocorreu uma separação entre o pensamento e a consciência. A consciência já não estava mais presa nos movimentos do pensar, havia se libertado da sua identificação com o pensamento — e esse pensamento contínuo era o “eu mesmo”, o eu pessoal — basicamente uma ilusão, uma percepção ilusória de identidade. Na manhã seguinte acordei profundamente em paz, e não sabia por quê. Tenho estado, desde então, sempre em paz (risadas)! Mais pra frente, alguns monges budistas me explicaram que o ensinamento básico de Buda é que o “eu pessoal” (self) é uma entidade ilusória, e assim percebi que era exatamente o que havia acontecido comigo naquela noite — a percepção do eu pessoal como ilusório.
Eckhart, a maioria das pessoas percebe o despertar como um processo que envolve tempo, mas no seu caso foi praticamente instantâneo. É necessário tempo para estar aberto a um acontecimento desse?
Bem, você poderia dizer que eu tive de passar por anos de sofrimento antes de estar pronto para sair do sofrimento, sim. Isso não me aconteceu aos 20 anos, quando eu já era infeliz, mas aos 29. Poderiam dizer que tive de passar um período de sofrimento antes de estar pronto para acordar — e este é o caso de muita gente. Antes de estarem abertas a isso, elas precisam passar por certa quantidade de sofrimento.
O que estou dizendo é que muitos interessados em espiritualidade, que praticam alguma disciplina espiritual, como meditação ou Yoga, frequentemente acreditam que em algum momento futuro talvez se tornarão iluminados ou libertos. Eles projetam algum tipo de versão melhorada de quem são no futuro. Por exemplo, quando pessoas meditam para atingir algo por meio disso, tentam se tornar melhores nisso. A grande falácia na prática espiritual é projetar um futuro. O importante é perceber quem você é, pois é disso que estamos realmente falando aqui, em um nível mais profundo que o pensar, mais profundo que o corpo, e tudo mais que pode ter se identificado em sua vida. Quem eu sou além da minha profissão, meu corpo físico, minha nacionalidade, meu passado, essas coisas com que me detenho temporariamente.
A realização só pode acontecer no momento presente. Você não pode encontrar quem você é em um nível mais profundo adicionando mais futuro, tornando isso um alvo futuro, algo como "em algum momento no futuro eu vou perceber quem eu sou”. Você só pode perceber quem é agora, mas muitas pessoas, antes de estarem totalmente abertas para esse momento, podem precisar de sofrimento para que o ego pessoal seja desmanchado gradualmente.
O ego produz sofrimento, mas, paradoxalmente, o sofrimento gerado pelo ego, eventualmente, também dissolve o ego. Isso foi exatamente o que ocorreu comigo, o sofrimento tornou-se tão intenso que não pude mais suportar. O ego produziu o sofrimento, mas teve de se dissolver, pois não seria mais suportável. É quase paradoxal (risadas), o ego cria a possibilidade para esse “estar pronto” ("readyness"), para, eventualmente, tornar-se livre dele.
O tempo é um assunto bastante misterioso. Como é o mundo visto por alguém, como você, não identificado com o tempo?
O principal é que o tempo, o tempo psicológico que estamos falando aqui, é produzido pelo movimento do pensar. O tempo psicológico, que é a constante identificação com o passado e constante projeção no futuro. O tempo psicológico somente pode dissolver-se se você não mais se identifica com seus próprios pensamentos. Ser livre do tempo é o mesmo que ser livre da sua mente.
A maneira mais simples e prática de estar livre do tempo, colocando em termos simples, é não acreditar em cada pensamento que aparece na sua cabeça. Esse é o significado do acordar espiritual, o momento em que você percebe, torna-se consciente da voz na sua cabeça, do processo do pensamento, que para a maioria são somente pensamentos. Isso significa que, de repente, você se torna consciente da mente, que existe uma dimensão da consciência que é mais profunda do que a mente pensante. E é sempre a partir daí que se pode observar o que a mente pensativa está fazendo. Para muitas pessoas, isso acontece quando percebem que estavam se identificando com pensamentos negativos por muitos anos. Pensamentos negativos sobre quem são, julgamentos sobre outras pessoas. E de repente, um momento chega em que elas percebem em que tipos de pensamento haviam estado profundamente ligadas. Esse é o começo do despertar espiritual, perceber que você não é essa voz na cabeça, que não é seus pensamentos, que você é a consciência, o entendimento de que é a própria consciência.
Essa é a base de todo e qualquer ensinamento espiritual, em última instância, independente da forma como é expressado. E certamente o centro do meu ensinamento é "desidentificar-se" da mente e perceber que todos os pensamentos na minha cabeça são condicionados pelo passado. E que não são tão importantes, há algo muito mais importante. Para muitas pessoas, seu senso de identidade, o senso de quem elas são, é conectado com o que elas dizem para elas mesmas nas suas mentes sobre quem elas são (risadas). Elas têm certa opinião sobre quem elas são. Se alguém o critica ou discute com você, sobre algo de onde você tira o teu senso de identidade, você imediatamente fica com raiva, ou defensivo, ou com medo. Pois essa pessoa está atacando o seu senso de identidade. A necessidade de estar certo é parte disso. Quando alguém contraria a sua razão, você fica com raiva, pois está se identificando com uma posição mental, com uma opinião, com um ponto de vista. Ao estar identificado, se alguém questiona ou diz que está errado, inconscientemente é percebido como um ataque a quem você é. Claro que não é quem você é, é uma ilusão. Algumas pessoas chegam a tornarem-se violentas fisicamente em uma discussão (mais risadas). É bem insano, mas não incomum.
Por que acontece? Porque as pessoas não sabem quem elas são, pensam ser a entidade criada pela mente. No momento em que você percebe que é livre dessa entidade, você pode funcionar nesse mundo com muito mais facilidade — quando alguém questiona a sua verdade, você pode simplesmente dizer: tudo bem, me explique porque estou errado, talvez você esteja certo. Você já não tem mais a necessidade de defender-se. É uma ilusão!
Quando você fala sobre o ego, é o mesmo que você chama de “corpo de dor” nos seus livros?
Não, o corpo de dor é o aspecto emocional do ego. O ego possui um aspecto mental, que são os pensamentos com que você se identifica, especialmente pensamentos habituais sobre quem você é, e o ego possui também um aspecto emocional, emoções habituais que você experiencia. O corpo de dor é o acúmulo de dores emocionais experienciadas no passado, que ainda vivem alojadas no corpo como um campo de energia. Essa é outra coisa muito importante para se estar consciente, pois é tão importante não se identificar com suas emoções como é não identificar-se com os seus pensamentos.
Estou feliz que tenha feito esta pergunta, porque nos leva ao próximo ponto: da mesma forma que você pode dar um passo, distanciar-se dos seus pensamentos e perceber que você não é o seu pensamento, mas sim a consciência por detrás; da mesma forma você pode sentir ou perceber sua emoção quando ela surge, e dar-se conta de que não é você.
Às vezes gosto de usar a expressão: você percebe que você não é a emoção, mas sim o espaço no qual a emoção surge. Você não é o pensamento, mas sim o espaço no qual o pensamento surge. Junto com isso vem uma paz interna e também uma aceitação interna. Isso é muito importante, a aceitação interna de tudo que possa surgir neste momento, porque já está lá, surgindo. Em vez de lutar contra uma emoção, pensar “eu não quero sentir isso” quando já estiver sentindo, simplesmente aceitar a emoção que surge...
Essa prática é um aspecto importante para descolar-se da emoção, pois quando você nega ou reprime a emoção, somente torna-a mais forte. Assim pode dar um passo para trás e observar: sim, aí está! Você é o espaço antes disso.
Isso se aplica não somente aos pensamentos e emoções, mas a tudo que acontece na sua vida neste momento, tudo que surge externamente, qualquer situação que você se veja dentro. É exatamente como funciona! Muitas pessoas vivem negando continuamente, sem aceitar o momento presente, pois querem chegar em outro momento onde acham que estarão melhor (risadas). Você precisa perceber que não existe esse tal de momento futuro. A vida consiste no momento presente, a vida se desdobra no espaço do momento presente. Em outras palavras, o momento presente é tudo que você tem e sempre teve na sua vida, nunca houve e nunca haverá nada na sua vida com exceção do momento presente.
Você somente experimenta a vida no momento presente, e precisa entender isso não somente no nível intelectual, mas sentir ou experienciar a verdade nessas palavras. É isso, tudo que você sempre possuiu é este momento. É de vital importância uma relação correta com o momento presente, pois significa ter uma relação correta com a própria vida.
Aceitação não somente dos pensamentos e emoções, mas também de tudo que acontece nesse momento, pois não pode ser de outra forma, já é. Aceite esse momento como ele é, pois se há conflito com o que é, você sofre (risos).
Aceite então tudo que surge. Algo dá errado, digamos, o carro quebra, ou você tem um acidente, de repente você perde algo... isso é exatamente como é. Essa é uma importante prática espiritual, aprender a ser amigável com o “assim é” (“isness”) do momento presente. E isso novamente abre em você a sensação de espaço interno, você não é a entidade reativa baseada nos pensamentos e emoções, você é a consciência mais profunda. E assim pode responder a uma situação de um diferente estado de consciência, em vez de reagir a partir de seu velho condicionamento. E é essa a beleza, você pode encarar o momento presente, e uma inteligência muito maior que seu pensamento condicionado limitado pode repentinamente operar, milagrosamente. O milagre, quando você pode lidar com a vida, que é sempre o momento presente, já não mais confinado no condicionamento limitado da sua mente.
A mente pode ainda estar ativa, mas pode ser um veículo para uma inteligência maior. O que é esta inteligência? É a inteligência por detrás da mente, que está lá no calmo silêncio da própria consciência.
Todo mundo já possui isso, mas a maioria não sabe que essa dimensão existe. Este é mais um motivo pelo qual você não necessita do futuro, você não pode descobrir isso no futuro, essa dimensão dentro de você mesmo. No momento em que você pensa que pode descobrir isso no futuro, está olhando para um pensamento, e o futuro é sempre um pensamento na sua cabeça, você nunca pode experimentá-lo. Existe somente como um pensamento na sua cabeça (risadas).
Se você olha para o futuro para encontrar essa dimensão mais profunda em si mesmo, nunca encontrará e ficará muito frustrado. Pois em termos absolutos, não há futuro, somente um pensamento. Essa não é uma filosofia da qual estou tentando convencer as pessoas. Estou pedindo a todos para verificar em sua própria experiência, é muito simples, verificar que não há futuro. E se alguém duvidar, perguntarei: você já experienciou o futuro alguma vez? Claro que não, você sempre experiencia o momento presente.
Se você olha para o futuro para encontrar essa dimensão mais profunda em si mesmo, a qual está além do pensamento, você está na verdade olhando para o pensamento para achar essa dimensão mais profunda, uma ilusão. É por isso que muitos praticantes espirituais não chegam a lugar algum (risadas).
A resposta — e a essência da espiritualidade — está na descoberta da dimensão vertical em você. Não na dimensão horizontal de passado e futuro, não é onde mora a realização espiritual, mas sim na dimensão vertical. Você pode ver como na cruz: a cruz é a intersecção entre a dimensão vertical e a horizontal. Isso é a vida realmente, mas a maioria só enxerga a dimensão horizontal, passado e futuro, e perde a dimensão vertical, que é o agora. Acreditam que o agora não é importante, o que é uma falácia tremenda, uma grande ilusão. Se você acha que o passado e o futuro são mais importantes que este momento, sua vida é disfuncional, e isso é normal, como a maioria das pessoas ainda vive (risadas).
Você vai descobrir que na sua vida não existe somente a dimensão horizontal do passado e do futuro (que continua ali), mas que existe também a dimensão vertical da profundidade. Na profundidade você encontra quem você é, a profundidade é inseparável do momento presente.
Para a realização espiritual, ou para perceber quem você é além do eu produzido pela mente, além do corpo, não há nada que necessite adicionar. Nada que necessite adicionar a você para estar mais completo, para então se encontrar, é uma falácia.
Há muita coisa na dimensão horizontal que é útil, não nego isso. Você necessita da dimensão horizontal, é parte da sua educação, o conhecimento que foi adquirido é parte dessa dimensão. Você tem certo conhecimento na sua mente, aprendeu coisas na escola, na universidade ou em experiências de vida. O tempo é necessário para aprender a tocar piano, para tornar-se bom em Yoga, isso tudo está na dimensão horizontal.
Não nego que esse nível também exista, mas se é a única dimensão que conhece, então sua vida é muita limitada, e acaba por encontrar muito sofrimento, frustração. O preenchimento mais profundo nunca vem para você por meio da dimensão horizontal. Qualquer conquista no passado ou qualquer que seja a conquista no futuro que adicione algo a você, nunca irá trazer o preenchimento profundo, a felicidade completa. Sobre felicidade, não uso essa palavra com frequência para não parecer superficial — uma profunda sensação de preenchimento é mais profundo que felicidade. A sensação de unidade com a vida. Essa possibilidade está aí para qualquer um, para todos. Mas ela não se abre até que você se dê conta da existência da dimensão vertical.
A dimensão vertical abre-se de uma maneira bem simples, abre-se assim que você diz sim ao momento presente, internamente, em vez de lutar, fugir, negar ou achar que o momento futuro será melhor. Então, quando você torna-se um com o momento presente, isso se abre e você não mais é um inimigo do momento presente, você não mais o nega e vê quão importante ele é. Quando você faz isso, e começa a viver dessa maneira, algo da dimensão vertical se abre dentro de você. E de repente... oh!... a vida torna-se o momento presente, tudo se torna mais vivo e intenso. É a primeira coisa que as pessoas percebem, elas são o momento presente. Então, talvez eu esteja falando muito (risos). Mas é tudo interconectado. Se me faz qualquer pergunta, irá trazer tudo... eu não posso responder a uma pergunta sem trazer a essência em si do ensinamento.
Entendo. Eckhart, confiança e fé são o único caminho para irmos além do condicionamento?
De uma forma geral, você pode dizer: você confia na vida? Ou você possui uma desconfiança básica na vida? Claro, se você desconfia da vida, desconfia das outras pessoas, pois são parte da vida. Basicamente a fé e a confiança são a ausência do medo. No momento em que você não está mais dominado pelo medo, uma sensação de vivacidade e conectividade brota. E você confia na vida. No momento em que o medo surge, você não mais pode confiar na vida. Em vez de tentar achar uma maneira de tornar-se uma pessoa que confia ou tem fé, realmente, o mais importante é ver se pode estar livre do medo. E para estar livre do medo, é preciso saber como o medo surge, como isso acontece, por que estou sentindo tanto medo.
Se você se pergunta: por que estou com tanta frequência nesse estado de medo? Ou ansiedade, ou mesmo estresse, que é um tipo de medo. Quando você se pergunta como isso surge, momentaneamente se torna consciente do medo e percebe que está com medo, pois a mente está continuamente se projetando para o próximo momento. E o próximo momento é incerto, você não pode controlar. O futuro é incerto. O medo surge por não estar em contato com o momento presente. No momento presente, o medo psicológico não brota; surge somente quando pensa o que vai acontecer a seguir.
Novamente, confiança e fé vêm quando você não mais está completamente identificado com a sua mente. Não somente fé e confiança, mas também amor. Não estou falando aqui do amor do ego — o ego diz “eu te amo”, mas quer dizer “eu preciso de você, eu quero você”. Se a outra pessoa não cumpre as expectativas, as necessidades do ego, imediatamente o chamado “amor” converte-se em ódio. Você pode estar numa relação romântica e de repente o amor vira ódio (risadas)! O amor real é algo muito mais profundo, não somente em relação aos seres humanos, mas amor pela natureza, por exemplo, interação amorosa com a natureza. O amor em relação a qualquer ser humano que encontre não precisa ser uma relação próxima. E você tem uma sensação de bondade afetuosa (“loving kindness”), expressão que os budistas usam.
O que surge quando encontra outro ser humano: bondade afetuosa ou medo?
Tudo volta ao mesmo ponto: se estou identificado com o ego, o ser construído pela mente, não posso amar outro ser humano. Se não sei quem sou em um nível mais profundo, se me identifico com uma falsa identidade, vou sempre querer usar o outro ser humano — ou vou querer que o outro faça algo por mim, ou temer que fará algo contra mim. Essas são as relações do ego.
Para estar numa relação de amorosidade generosa, ter uma sensação de confiança na vida, você necessita ter ido mais profundo dentro de você, mais profundo do que a mente pensante, na dimensão vertical. É a partir dessa dimensão de profundidade que todas essas coisas incríveis brotam, as únicas coisas que fazem a vida valer a pena: amor, confiança, a habilidade de ver a beleza ao redor, beleza não somente nos seres humanos — no mundo da natureza e nas coisas mais insignificantes. Mas quando está preso na mente julgadora, você não vê isso. Novamente, somente repetindo, fé e confiança só podem estar quando o medo se vai.
E o medo somente pode ir embora quando você não está identificado com o ser produzido pela mente, que é criado pela contínua identificação com os pensamentos. Bem simples!
Ouvindo você agora é bem simples mesmo! (risadas) Eckhart, quando se fala em eliminar todo e qualquer desejo, pode ser uma batalha bem complicada. É possível eliminar os desejos?
Boa pergunta. Isso é o que o budismo ensina, não eu. Em vez disso, perceba que o momento presente é primordial na sua vida. O que é desejo? Desejo significa que você necessita adicionar certas coisas a quem você é. E por que você acha que precisa adicionar disso? Sejam mais posses — eu preciso de mais, de uma casa melhor para me sentir mais importante, de uma conta bancária maior, de mais reconhecimento, de um emprego melhor, mais sexo, mais comida! Não há fim. Muitas pessoas, infelizmente, vivem assim, para os seus desejos. Não estou dizendo que você não deve trabalhar, que não deve tentar um emprego melhor, por que não? Não estou dizendo que não deva adquirir mais conhecimento, se está interessado em coisas, por que não? Que você não deva até mesmo explorar, ter mais relacionamentos; se é o que quer, por que não? Viajar para outros países, ter mais experiências... é a dimensão horizontal novamente, não há nada de errado com a dimensão horizontal! Entretanto, se você está procurando por preenchimento e felicidade por meio dos seus desejos, nunca conseguirá. É parte do ensinamento de Buda, que não interessa qual desejo você atinja, ele jamais te fará satisfeito.
Pode satisfazer por um momento breve, por um dia, dois, algumas semanas ou meses. Depois a insatisfação surgirá novamente, novos desejos virão. Então, podemos dizer que existem duas maneiras de encontrar infelicidade ou sofrimento: uma é conseguir o que se quer e a outra é não conseguir o que se quer! Se você está preso na dimensão horizontal da vida, não se sentirá preenchido por muito tempo. Buda viu isso e disse “livre-se dos desejos”, mas para mim é algo quase impossível. Em vez disso, vá mais profundo no momento presente. Quanto mais profundo você vai, maior a sensação de conectividade, um sentimento profundo de vivacidade, de ser, presença. Quando você conecta-se com essa profunda sensação de estar vivo, todo o mundo fora parecerá mais vivo, vibrante, novo, fresco.
Essa é a fonte de satisfação na vida, e não alguma coisa ou desejo que possa conquistar. Conecte-se com a fonte da satisfação na vida e os desejos não mais se tornam um problema. Você ainda pode ter alguns desejos superficiais, como uma casa melhor, uma viagem, mas já não são mais os desejos que prometem a felicidade ou o preenchimento. São superficiais, como brincar com as formas da vida.
Você pode curtir o jogo da vida, mas não está procurando mais por preenchimento por meio dos desejos. Simplesmente leva como um jogo, uma brincadeira. Não há nada de errado em brincar, é bonito brincar. Mas quando espera algo da dimensão horizontal — que podemos também chamar o “mundo” —, quando espera algo deste mundo, ele não pode te dar. Em outras palavras, quando você diz ao mundo “faça-me feliz e diga quem eu sou”, o mundo não pode fazer isso! Nada neste mundo te fará feliz, nada neste mundo te dará preenchimento completo. Buda claramente estava correto, vendo que, ao seguir os desejos, nunca terá a sensação de chegar, encontrar. Você nunca chega! (risadas)
Como podemos usar práticas corporais, como Hatha Yoga ou corrida, como um portal para essa dimensão vertical?
Hatha Yoga, Tai Chi, Chi Kung e outras práticas ajudam a levar a sua atenção consciente para dentro do campo de energia interno do corpo. Isso é muito importante, porque o corpo é um caminho, um ponto de acesso à vitalidade, às profundezas do momento presente. Parte dos meus ensinamentos é que as pessoas se tornem conscientes de que seu corpo está vivo. Ou seja, sinta que dentro de suas mãos, braços, pés, pernas existe uma vivacidade vibrante. Atenção em direção ao corpo interno percebendo que o corpo inteiro está permeado por uma sensação de vivacidade, a energia dentro do seu corpo, a energia da vida. Às vezes digo que é uma âncora para o momento presente.
Enquanto alguém lê essas palavras, pode sentir que seu corpo interno está vivo? O corpo inteiro, dos pés à cabeça, vivo — a prática de sentir isso leva a sua atenção, que normalmente fica dentro da cabeça, no processo de pensar, para fora da cabeça. Você pensa menos e se torna mais presente. Isso não é somente benéfico do ponto de vista da saúde, pois é uma grande fonte de autocura estar conectado com o corpo interno, habitar o corpo conscientemente — recomendo às pessoas que assim que sintam chegar o menor sintoma de mal-estar, como uma gripe, que imediatamente fiquem intensamente presentes no corpo, especialmente antes de ir para a cama à noite ou ao acordar pela manhã. É autocurador. Mas além da cura física, também tira o foco da cabeça, das identificações com os pensamentos. Ao estar por inteiro no seu corpo, dificilmente há qualquer pensamento.
Então, o corpo pode ser uma porta para este estado de presença, para a dimensão vertical. Uma parte muito importante dessa prática é a atenção consciente no corpo físico. Não no externo, mas no interno. Não importa como é esse corpo externo, se não é perfeito — a maioria dos corpos não é perfeita, está bem —, nós vamos para o corpo interno. A prática de Yoga ou Tai Chi ajuda nisso, mas como complemento, todos devem desenvolver a habilidade de sentir seu corpo interno onde quer que estejam. Sentado em uma cadeira, eu estou sentindo-o agora falando com você e talvez você sinta o seu enquanto escuta. Estar presente no mundo externo com suas percepções sensoriais e ao mesmo tempo sentir o campo interno de energia é um bela maneira de estar neste mundo — conectado ao campo interno de energia e presente ao externo, escutando, observando e tudo mais. Uma prática maravilhosa. Altamente recomendada para todos.
Uma última pergunta. Ouvimos muito sobre iluminação. O que é iluminação para você? Você se considera iluminado?
Eu não me considero iluminado, pois não tenho um conceito de mim na minha cabeça, sobre quem eu sou. Outra maneira de expressar a iluminação seria não mais gerar sofrimento, nem para si nem para outros. Em vez de tentar encontrar iluminação, seria de mais ajuda querer estar livre do sofrimento. É a mesma coisa. Iluminação é finalmente reconhecer que a essência de quem você é, é sem forma. A sua essência não tem nada a ver com passado e futuro, não pode ser encontrada nas palavras, não pode ter um conceito sobre ela. Portanto, não pode ser agarrada. E, portanto, você não pode ter um ponto de vista de que “eu sou iluminado”. O que a iluminação traz é que a personalidade ou a pessoa se torna transparente, não mais se tira a identidade a partir do aspecto temporário de quem é, a pessoa que é condicionada pelo passado — isso se torna transparente, você não está identificado com isso, e algo mais profundo brilha através de você. E isso é a consciência em si; você percebe que é a luz da consciência e não a pessoa limitada. E assim você não está separado de mais ninguém, e sim uno, pois a luz da consciência é a inteligência universal que permeia todo o Universo.
Essa é a essência de quem você é, não separada de nada. Você é um com a essência de toda a vida. Portanto, dizer “eu sou iluminado e outra pessoa não é", isso não é uma verdade. Todos já são um com a essência, podem não saber. Não há um senso de ser especial ou superior de maneira nenhuma. Perceber quem você é além da forma física e da forma psicológica, além do corpo e da mente, perceber quem é, é a iluminação. Mas se alguém pergunta "quem é você?" , você não vai conseguir responder. Qualquer resposta que dê é uma limitação novamente.
Sim... muito obrigado, Eckhart.
Obrigado você. Espero que não seja muito difícil para transformar isso num artigo que possa ajudar os leitores! Eu leio e falo espanhol, posso entender provavelmente uns 70% do texto em português. Por favor, me envie uma revista quando estiver pronta! Eu gostaria, um dia, de visitar o Brasil. Nunca estive aí, mas gostaria muito de ir um dia.
Será um prazer ajudá-lo no que for possível para que venha.
Vou focar nisso e pode acontecer.
Espero que sim. Obrigado pelo seu tempo, Eckhart.
Eu que agradeço. “Blessings to you” (bênçãos a você).
(fim)
Para saber mais sobre a obra do autor, acesse www.eckharttolle.com
Para saber sobre a revista Prana Yoga Journal: http://eyoga.uol.com.br/
Todos direitos desta entrevista estão reservados.
Todos direitos desta entrevista estão reservados.

OLá Andre, muito interessante a entrevista, não conhecia este autor, vou procurar os livros, obrigada
ResponderExcluirUma Feliz Páscoa
Um abraço
Adorei!!
ResponderExcluirMuito legal -- inspirador! Suzana Stroke
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