sábado, 11 de outubro de 2008

Uma crise de valores



Estamos assistindo um momento de aflição no mercado financeiro, com bolsas de valores despencando no mundo todo e o medo tomando conta, principalmente de quem mais esperava ganhar com seus investimentos.

A questão que me coloco, e agora pra quem está lendo essas palavras, é exatamente em relação aos investimentos que temos feito. Temos escolhido investir onde há maior expectativa de ganho pessoal, de preferência, sem saber quem está perdendo enquanto ganhamos.

A bolsa de valores é o grande exemplo prático dessas escolhas que temos feito. Compramos uma ação sem saber quem está vendendo, quem está por trás, o que faz, suas necessidades - e vendemos da mesma forma que compramos. Sem vínculos com o negócio, com qualquer parte envolvida, sempre com o foco em ganhar mais. Não vejo problema em ganhar mais, o ponto aqui é porque estamos querendo ganhar sem querer ver as consequências das nossas escolhas.

Queremos ganhar sem sentir culpa, sem sentir a culpa de saber que alguém está se dando mal com minhas escolhas. Caso exista um vínculo com a outra parte, vou achar muito esquisito ver o outro perdendo para suprir minha necessidade de ganhar. Ganhar junto com o outro acaba nos parecendo algo tão distante quanto os times do Brasil e da Argentina ganharem juntos a final da Copa do Mundo.

Esses são os valores que temos escolhido afirmar e reafirmar. Ao invés de olhar para essa culpa e este medo, preferimos negar tudo isso. Escolhemos desconfiar em primeira mão, com medo de perder, e escolhemos nos separar e nos desvincular com culpa por ganhar.

Será que existe uma outra maneira de lidar com esse medo e essa culpa? Será que existe uma outra forma de escolhermos para irmos juntos, além dessas limitações?

A minha resposta é sim, existe uma outra maneira, e tenho aprendido essa possibilidade através das minhas escolhas nas relações de cada dia. Tenho percebido pessoas muito queridas escolhendo de outra maneira, e me inspiro nessas escolhas.

Cito aqui a crise financeira, mas a crise vai muito além do mundo da grana, a crise permeia todos valores, todas nossas escolhas. A maneira que temos escolhido não se sustenta mais, está cada vez mais difícil nos cegar para as consequências. Os custos ao negar são muito maiores que os ganhos percebidos, queira ver ou não.

Assisti ao filme “Ensaio Sobre a Cegueira” na semana passada, aquele baseado no livro do Saramago. Saí do filme com a plena sensação de que a confiança e o vínculo entre pessoas é a única solução para olharmos o medo sem ser dominado por ele. Podemos escapar juntos, ganhando juntos ou continuarmos cegos, perdidos uns dos outros e sofrendo (aos cegos de vista física, já aviso aqui pra evitar algum processo na justiça: a cegueira aqui é somente uma metáfora para nossa dificuldade de ver o que está realmente acontecendo, ok?).

Olhar o medo e a culpa de frente pode doer, trazer tristezas e raivas escondidas. Pode parecer um monstro enorme, mas não vejo outra maneira para ir além. E fazer isso juntos é a grande possibilidade de enxergar de outra forma, a possibilidade de realizar o milagre de voltar a enxergar.

Seja na relação paciente-terapeuta, num casal, num grupo de amigos ou numa empresa, cada um que passa a enxergar pode compartilhar com o outro e assim vamos aprendendo a confiar, criando vínculos mais fortes, percebendo que ganho sempre que o outro ganha, perco sempre que o outro perde.

Não estou dizendo aqui para todos darmos as mãos e assim vamos mudar o mundo. Falo aqui da responsabilidade de cada um, da minha e da tua, se assim quiser escolher agora. O mundo todo não precisa escolher junto comigo agora, mas tenho certeza que um amigo, um grupo ou quem sabe uma empresa toda escolhendo juntos facilita muito esse trabalho.

Esse trabalho é essencial se quisermos ver com os próprios olhos, se quisermos ir além da ansiedade sem fim, ir além desse medo de perder nossos antigos valores e crenças. Muitos vão dizer que é uma utopia, uma ingenuidade, mas prefiro experimentar na prática.

Aqui um cego escreve, mas um cego decidido a enxergar, decidido a me ver em cada um que cruza o meu caminho. Decidido a criar junto, novas formas de se relacionar, novos modelos de negócios, novas possibilidades de confiar e amar. E quem quiser ser responsável pela própria felicidade, que caminhemos juntos. Com o perdão pelas minhas dificuldades de enxergar e confiar.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006


Estar voltando sem lembrar de ter ido
Sem saber de onde partiu primeiro
Sem conhecer o paradeiro

Esse lembrar que os sentidos enganam
Onde já não faz sentido aliás
E já nem é pra frente ou pra trás
Por mais que ainda se sintam

E mesmo sem aquele sentido assim
Deixar-se estar perdido
Sentido, deitado, calado, vivo
E achar-se nesse paradoxo sem fim

sábado, 23 de setembro de 2006

Aterrisando (mas agora com todos acentos `´^~ !)

Há alguns poucos dias cheguei em São Paulo, ou ainda estou chegando. Depois de 10 meses é interessante e forte voltar, rever a família, a casa, alguns amigos, a cidade, av. Paulista, pessoas nas ruas. Sensação de ainda estar viajando, vendo como visitante mas ao mesmo tempo já sentindo algumas pressões internas pra acelerar. Uma cobrança antiga, que se adequa bem no dia-a-dia de Sao Paulo, mas que fica até esquisofrênica nesse momento em que ainda mal aterrisei e preciso realmente desacelerar e reiniciar com calma.



Traz confiança perceber que os encontros acontecem nos seus próprios tempos, encontros verdadeiros, sem pressa, sem euforia, reencontros que trazem aquela sensaçao de estar no lugar certo na hora certa.
Alguns momentos vem aquela vontade de sair ligando pra amigos, conhecidos, dizer que cheguei, que quero ver, quando nem mesmo cheguei.

Bonito voltar e ter tantas oportunidades de recomeçar, seja num ano-novo judaico, no acolhimento de pessoas muito queridas, num primeiro dia de primavera ensolarado, lendo um livro que trouxe da India, recebendo um e-mail de um amigo que ainda não sabe que já estou de volta, possibilidades que preenchem de gratidão.

É uma grande oportunidade voltar pra cidade onde sempre morei depois de alguns meses intensos em outras culturas, lugares, tempos. O condicionamento aflora em vários pontos e vêm a tona. Tudo aquilo que sempre fez parte do dia-a-dia, locais que morei, trabalhei, ruas que frequentei, amigos, familia, maneiras de se adequar ao ritmo da cidade, as diversas possibilidade de fuga e encontro de/com si mesmo, tudo isso vai mostrando com mais clareza aquela imagem que faço de mim mesmo.

Uma imagem bastante relacionada com a casca que foi se moldando pra viver ou sobreviver física e emocionalmente nesse lugar-espaço-tempo. A imagem de um André que precisa ser bem-sucedido, que deve seguir as regras e normas pré-estabelecidas com o mínimo de questionamento, o menino Melman que deve seguir sua religião/tradição e ser um bom menino a partir da moral descrita, o adolescente competitivo que deve ganhar medalhas e troféus, ser melhor e se ver através dessa comparação sem fim, o executivo que deve traçar estratégias pra sua carreira de sucesso, e até o buscador que precisa chegar em algum lugar onde outros não chegaram pra se sentir mais poderoso dessa forma.

O lugar em si tem um significado profundo pra mim, mas essas cascas todas puderam ser vistas em cada local que passei, em cada encontro, com um guru na India, uma menina simples no sul da França, um ciclista japonês na Jordania ou um soldado em Israel.
A oportunidade agora é de olhar novamente pra essas e novas cascas aqui, e acolher cada uma delas, nos encontros com amigos, familia, pessoas com quem já trabalhei, conversei, namorei, vivi. E ao acolher ir percebendo que não sou somente essas cascas, que posso também enxergar a beleza no "feio", que posso ter prazer no "desconforto", que posso ser um "bom" menino sem seguir a moral externa e até mesmo um "bom judeu" sem viver de acordo com as escrituras.
E por enquanto sigo escrevendo, enquanto me sentir um viajante nesse planeta, país, cidade, bairro, casa, quarto.
E aqui agradeço aos que vejo e aos que não vejo, esses mestres todos que proporcionam cada vez mais entender esse eu, esse Nós.

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Rios

Chegar numa cidade nova, num novo albergue, eh sempre diferente mas com algo que se repete. Agora ja ha alguns dias em Firenze num lugar muito gostoso num pequeno predio de fachada medieval e bem confortavel por dentro, sinto a troca vindo de um albergue em Roma barulhento e sem charme. Esses "altos" e "baixos" que se repetem vao mostrando outras maneiras de ver os altos e baixos. Tenho percebido que o que me traz certa paz eh um local tranquilo pra dormir, escrever, descansar entre caminhadas e jornadas, tomar um cafe-da-manha decente, ler um pouco, caminhar pelo rio, subir o morro pra ver o por-do-sol.




Engracado perceber isso viajando e parando cada 3 dias num novo lugar, que me faz bem ficar em casa, me sentir em casa. Esse sentir-se em casa com certeza vai alem do lugar em si, mas o lugar que escolho pra estar pode facilitar muito esse encontro, mais em contato comigo, minhas emocoes, minhas vozes e ouvidos, e consequente/e com o lugar em si. Eh uma roda, um ciclo virtuoso que vai proporcionando escolher cada vez mais de acordo com esses ouvidos que vao se afiando.

Eh logico que me pergunto porque continuo seguindo de lugar em lugar. Quando chego num desses lugares que me levam pra esse espaco de conforto, porque nao fico por la? Ainda nao sei a resposta mas talvez nao conheco (ou reconheco) esse lugar, esse onde nao ha necessidade de vagar, de conhecer ouras maneiras de estar.
Mas vou seguindo, vendo com mais clareza que esse meu movimento constante nao eh necessario, que o movimento eh por si soh, como um rio que desce morro abaixo, que varre, flui e sempre vem de novas formas, novas ondas, seja mais raso ou mais profundo. E as vezes me sinto como uma barragem, tentando conter esse fluxo todo, fazendo um esforco enorme pra me convencer da importancia do meu movimento, quando esse movimento eh puro fruto do medo da inundacao, da agua tomando todos os campos.




E cada vez mais quero estar na beira do rio vendo e vivendo os diferentes mundos que ele traz a cada instante. Mergulhar, nadar, e voltar pra beira, olhar da outra margem, mergulhar de novo.
Falar mais com as aguas, ouvir suas estorias em cada bolha de ar, aprender com quem respira dessa forma natural onde as barragens sao somente temporarias e impermanentes.
E vou entre rios, caminhando pelas beiras de cada uma dessas cidades, e quem sabe me leve a beira de algum rio-amigo e me veja nadando nas aguas, ora rasas, ora profundas, essas aguas que julgava controlar algum dia atras.

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