Um guerreiro em defesa de si mesmo, nem que para isso tivesse que dizer que lutava para proteger todo império, que lutava pela humanidade.
Um guerreiro com uma bela armadura, que o protegia muito bem contra golpes e armas.
Uma armadura bela mas com sua rigidez, que muitas vezes lhe tirava liberdade de movimento, muito pesada em outros momentos.
Mesmo com o peso a carregar e a liberdade limitada, a armadura garantia uma imagem de forte guerreiro, que causava medo em algumas pessoas e em outras levava à adoração - ou ambos ao mesmo tempo, uma idolatria amedrontada.
E assim seguia batalhando, lutando por uma imagem de vencedor, uma imagem que poderia ser adorada.
Com o tempo a armadura foi ficando pesada para um corpo já cansado. E alguns já se questionavam se este guerreiro lutava mesmo pelo império, ou se lutava somente pra defender sua própria imagem.
Um dia numa batalha feroz, sua armadura e fiel protetora rachou-se ao meio. Mesmo amedrontado conseguiu sair do campo em guerra ainda ileso, e chegou num belo lago.
Sentou na beira do lago, com o sol se pondo, e pela primeira vez pode olhar pra si mesmo sem aquela vestimenta pesada. Estava tão exausto que não havia como esconder o que via. Haviam feridas profundas pelo corpo. "Como isso é possível?!" - ele se perguntava - " Jamais fui ferido em guerra alguma!"
Percorrendo as feridas com os dedos, a sensibilidade era tamanha que qualquer toque trazia uma dor lancinante, como espadas cravejadas pela pele.
A cada ferida que entrava em contato, lembranças de um passado distante vinham à mente. Lembranças de momentos em que se sentiu abandonado, das vezes em que não conseguiu se expressar verdadeiramente, em que se sentiu incapaz de ser quem sentia que era realmente.
Com um pouco de água do lago cristalino foi limpando cada ferida, lágrimas de uma dor quase insuportável caíam de seus olhos, urros de raiva brotavam da garganta. Os tenros raios de sol chegavam ao seu corpo como um carinho, penetravam fundo, até um lugar onde o sofrimento já não estava mais.
Desse espaço de quietude, continuou o processo de limpeza e cuidado consigo mesmo. Lágrimas e gritos vinham mas já com mais fluidez, sem tanto controle, e uma certa alegria surgia ao mesmo tempo. Uma alegria ao perceber um passado se dissolvendo, por perceber uma imagem há tanto tempo protegida, como irreal.
Muitas dessas feridas foram curadas naquele dia mágico à beira do lago, outras ainda precisavam de tempo, cuidado e carinho.
A armadura partida foi deixada ali, e aos poucos o guerreiro deixou de lado batalhas para defender o império.
E fez uma nova armadura, mais leve e flexível, a qual poderia retirar com facilidade quando quisesse. Assim que estivesse confortável, num rio, num pôr-do-sol, ou com um ouvido sincero, a armadura era posta de lado e as feridas iam sendo curadas.
Em outros momentos, onde a confiança ainda não permitia expor as feridas que via, deixava a armadura, por escolha própria, sem querer provar nada a ninguém, simplesmente sabendo seu próprio limite, com amor a si mesmo.
E seu caminho foi seguindo assim, com armaduras mais leves, cada vez mais tempo exposto ao ar e ao sol, à terra e a água. As feridas iam se curando quando menos esperava, mesmo algumas bem profundas.
E assim foi se dando conta de quem era, mesmo com as feridas que via, e as feridas foram caindo para um segundo plano. Num primeiro plano, já brotava uma alegria por experienciar cada momento, cada lágrima e cada sorriso, um sentir profundo que o conectava a tudo ao redor.
Um guerreiro conquistava a si mesmo, numa batalha sem fim.
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