Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita



