domingo, 6 de setembro de 2009

O guerreiro e uma armadura rompida


Era um guerreiro, sim, sem dúvida alguma.
Um guerreiro em defesa de si mesmo, nem que para isso tivesse que dizer que lutava para proteger todo império, que lutava pela humanidade.

Um guerreiro com uma bela armadura, que o protegia muito bem contra golpes e armas.
Uma armadura bela mas com sua rigidez, que muitas vezes lhe tirava liberdade de movimento, muito pesada em outros momentos.

Mesmo com o peso a carregar e a liberdade limitada, a armadura garantia uma imagem de forte guerreiro, que causava medo em algumas pessoas e em outras levava à adoração - ou ambos ao mesmo tempo, uma idolatria amedrontada.

E assim seguia batalhando, lutando por uma imagem de vencedor, uma imagem que poderia ser adorada.

Com o tempo a armadura foi ficando pesada para um corpo já cansado. E alguns já se questionavam se este guerreiro lutava mesmo pelo império, ou se lutava somente pra defender sua própria imagem.

Um dia numa batalha feroz, sua armadura e fiel protetora rachou-se ao meio. Mesmo amedrontado conseguiu sair do campo em guerra ainda ileso, e chegou num belo lago.

Sentou na beira do lago, com o sol se pondo, e pela primeira vez pode olhar pra si mesmo sem aquela vestimenta pesada. Estava tão exausto que não havia como esconder o que via. Haviam feridas profundas pelo corpo. "Como isso é possível?!" - ele se perguntava - " Jamais fui ferido em guerra alguma!"

Percorrendo as feridas com os dedos, a sensibilidade era tamanha que qualquer toque trazia uma dor lancinante, como espadas cravejadas pela pele.
A cada ferida que entrava em contato, lembranças de um passado distante vinham à mente. Lembranças de momentos em que se sentiu abandonado, das vezes em que não conseguiu se expressar verdadeiramente, em que se sentiu incapaz de ser quem sentia que era realmente.

Com um pouco de água do lago cristalino foi limpando cada ferida, lágrimas de uma dor quase insuportável caíam de seus olhos, urros de raiva brotavam da garganta. Os tenros raios de sol chegavam ao seu corpo como um carinho, penetravam fundo, até um lugar onde o sofrimento já não estava mais.

Desse espaço de quietude, continuou o processo de limpeza e cuidado consigo mesmo. Lágrimas e gritos vinham mas já com mais fluidez, sem tanto controle, e uma certa alegria surgia ao mesmo tempo. Uma alegria ao perceber um passado se dissolvendo, por perceber uma imagem há tanto tempo protegida, como irreal.

Muitas dessas feridas foram curadas naquele dia mágico à beira do lago, outras ainda precisavam de tempo, cuidado e carinho.
A armadura partida foi deixada ali, e aos poucos o guerreiro deixou de lado batalhas para defender o império.

E fez uma nova armadura, mais leve e flexível, a qual poderia retirar com facilidade quando quisesse. Assim que estivesse confortável, num rio, num pôr-do-sol, ou com um ouvido sincero, a armadura era posta de lado e as feridas iam sendo curadas.

Em outros momentos, onde a confiança ainda não permitia expor as feridas que via, deixava a armadura, por escolha própria, sem querer provar nada a ninguém, simplesmente sabendo seu próprio limite, com amor a si mesmo.

E seu caminho foi seguindo assim, com armaduras mais leves, cada vez mais tempo exposto ao ar e ao sol, à terra e a água. As feridas iam se curando quando menos esperava, mesmo algumas bem profundas.

E assim foi se dando conta de quem era, mesmo com as feridas que via, e as feridas foram caindo para um segundo plano. Num primeiro plano, já brotava uma alegria por experienciar cada momento, cada lágrima e cada sorriso, um sentir profundo que o conectava a tudo ao redor.

Um guerreiro conquistava a si mesmo, numa batalha sem fim.

domingo, 30 de agosto de 2009

Um grito em silêncio reverbera ao infinito

Ahhh, um grito das profundezas
Indo além das convenções e regras
Um grito em silêncio
Mas disponível pra quem quiser escutar

Um grito de criança
Daquela que tem o sonho de dominar o mundo
Pra que tudo seja como quer que seja

Um grito de adulto
Que expressa sua criança mimada
E sabe que esse sonho de dominação já não é saudável

Um grito de dasabafo
Sem a seriedade forçada
Sem negociações
Por pura brincadeira

E assim é possível olhar pra mim mesmo
Livre de um antigo sonho de poder
Que já não me domina mais

E assim posso soltar os outros
Que abafam suas crianças
E posso ser livre dentre tantas crianças
Abafadas como a minha

Sigo assim por detrás dos bastidores
Reconhecendo cada um sem suas máscaras
E a mim mesmo por detrás da minha

Solto nesse grito um compromisso infantil
Um compromisso que já não faz mais sentido
De fingir que um dia posso dominar o mundo
De fingir que sempre tenho a razão

Um grito que reverbera nas entranhas
E vai até além do infinito

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O grupo: seu poder e seus desafios


Já quando nascemos caímos num grupo, numa família, que estruturada ou não, já é o primeiro e provavelmente mais influente círculo de pessoas, na vida de cada um que passa por esta experiência humana.

Pai, mãe, avós, irmãos mais velhos, tios, todos foram me servindo como professores, me ensinando como falar, comer, me comportar, como fazer parte desse grupo no qual estava chegando.

Fui crescendo e pude experienciar fazer parte de novos grupos, na escola, no clube, no acampamento, no prédio em que morava, e com cada grupo fui aprendendo novas maneiras de fazer parte. Nesses primeiros, como vieram a mim muito pelas escolhas dos meus pais, as maneiras e regras eram bem similares às que eles haviam me ensinado, e na maior parte do tempo, pareciam coerentes.

Mesmo durante a adolescência e após, continuei traçando um caminho onde as escolhas estavam muito coladas às da infância - a primeira formação na universidade, por exemplo, foi exatamente a mesma do meu pai. As formas que eu representava para me sentir aprovado foram seguindo um curso quase homogêneo, logicamente com dificuldades crescentes, pois os grupos eram cada vez mais abertos e porosos. A faculdade, mesmo sendo de engenharia, era um mundo muito mais aberto do que a escola judaica que eu frequentara.

Hoje consigo ver com mais clareza que a cada novo grupo, muitas de minhas antigas maneiras de atuar para me sentir amado e aprovado, eram colocadas em cheque. A cada novo grupo eu precisava me flexibilizar para enxergar o ponto-de-vista do outro, lapidar minhas estratégias para ser parte com algum conforto.

E vieram muitos outros grupos, cursos fora do país e equipes de trabalho em diversas empresas, onde o processo continuava.

Em um certo momento ou período, vejo uma primeira mudança de atitude. Foi quando percebi que podia começar a escolher por mim, indo além das escolhas vindos dos grupos primais. Muitos vivem isso na adolescência, eu sinto que somente fui viver isso de verdade depois dos 25 anos, depois de algumas crises por doenças incômodas, morte na família e encontros com pessoas inspiradoras.

Esse é um marco importante pois dali foram surgindo desafios ainda maiores. Os novos grupos que fui escolhendo participar foram permeando os que eu já fazia parte. Me desligando de alguns, me aproximando de outros. Vieram grupos de auto-conhecimento, de terapia, nova faculdade - de psicologia, comunidades na Europa, India, Israel e Brasil, rede de empreendores sociais e novos círculos de trabalho, cada vez mais conectados e abertos.

Um caminho que me desafiava a ser cada vez mais flexível, a romper com antigos padrões que já não me alimentavam mais, a ser cada vez mais quem eu escolhia ser.

Interessante, olhando para todos esses processos, é perceber a sutileza do ato de escolher. Nesse processo que continuo vivendo, quando penso estar escolhendo por mim, vejo que muitas vezes ainda estou no padrão de escolher para ser aceito e amado pelo grupo ao redor, pelo medo de me sentir abandonado. É sutil pois os grupos vão se tornando mais amplos e mais diversos, e eu cada vez mais flexível - e a flexibilidade é um grande instrumento para ser aprovado, e me abandonar em tanta flexibilidade.

Agora sinto nesse período um novo marco, uma nova transição que acontece agora. Parece que para iniciar esse novo ciclo precisei voltar vivenciar nos últimos meses a experiência de um grupo fechado, no caso um grupo de meditação com uma mestra como autoridade máxima. Nesse grupo, onde o trabalho está focado na responsabilidade das escolhas a cada momento, no sentir e vivenciar sua própria experiência, a minha flexibilidade adquirida já não gerava os mesmos resultados. Minhas estratégias para ser aceito foram sendo desmascaradas com mais força - inclusive esta semana, uma das mestras, autoridade nesse grupo, leu meu blog e disse que era mais uma ferramenta minha para ser amado e querido.

Caminhada delicada essa que surge. Fazer parte de grupos, muitos de amigos de longa data, com mais responsabilidade, alerta ao abandono de mim quando esqueço dessa fonte de amor abundante aqui dentro. Um novo marco pois é como se eu tivesse tomado uma dose do veneno da cobra como soro para cura - que bom que foi na dose certa! A autoridade externa me acordando para que eu encontre a autoridade em mim mesmo, sem abusos.



Um novo movimento onde não sinto que preciso abandonar os grupos para continuar crescendo e me responsabilizando, mas tenho sempre essa liberdade de abraçar outros que me tragam novas possibilidades de crescimento.

Caminhada sutil pois os grupos, como minha primeira família, passam a ser vistos como um grande reflexo de quem sou, me apontando o que ainda não consigo ver. Sutil, pois cada um em cada grupo também falha em encontrar a amor por si e projeta fora, em encontrar a autoridade por si e projeta fora.

E assim vou pintando com novas cores que surgem, com mais clareza e discernimento, sabendo que posso fazer parte de grupos e escutar autoridades externas. Que posso abraçar o melhor do que vejo fora, e que o caminho é para dentro sempre, além de tantas projeções.

E escolho continuar escrevendo, mesmo que ainda seja uma forma de ser amado, pois por enquanto, sinto que me amo quando assim faço, e é parte essencial da minha liberdade mesmo fazendo parte de tantos grupos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tempo tempo tempo...

Hoje é lua nova, uma amiga me disse que é uma grande oportunidade pra recomeçar, iniciar um novo ciclo. A oportunidade está sempre presente então, cada 28 dias um novo começo. E por que repetir tudo da mesma forma?!


Essa questão do tempo tem estado muito presente, o tempo como uma oportunidade pra rever, transformar, fazer diferente. Quantos ciclos já não vivi fazendo tudo igual, seguindo os mesmos padrões, me rendendo aos mesmos medos.
Tudo bem, já me aproveitei de muitas oportunidades para mudar, crescer, me abrir pro novo, mas é incrível perceber que essa possibilidade é constante, a cada instante. O tempo é como um grande instrumento que deixamos guardado na caixa de ferramentas para um momento mais propício e confortável.

O aprendizado nos últimos meses tem sido basicamente esse: se eu não uso o tempo com todo o potencial que ele me oferece, viro refém dessa ferramenta obsoleta. Entro assim na roda do condicionamento por padrões do passado e adiando a abundância e felicidade para um momento futuro, quando "estiver pronto". E usar o tempo tem toda sua sutileza, envolve ser vulnerável, estar fora do controle...

Se o tempo pudesse falar ele diria claramente: "meu único papel é te ensinar a me soltar, soltar essa idéia do que já fui e do que serei". Nesse exato momento, o tempo é somente uma idéia, onde só o momento existe, o que é, com todas suas potencialidades, agora.

Parece livro de auto-ajuda, mas é mesmo. E agora nessa lua nova me disponho a me ajudar, a ouvir a voz mais profunda do tempo, esse grande pai. E me disponho a perceber a beleza de cada momento, de cada encontro, com a noite, com a chuva, com o gato da vizinha, com as flores no quintal, das cores e cheiros. Me abro pra possibilidade de escutar cada um sem tantos vícios e expectativas, e me desapegar desse grande professor, autoridade mundial, o Tempo.

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