Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Out 09 - André Melman
Alemanha Oriental, começo dos anos 80, antes da queda do muro de Berlim.
A espionagem invasiva que o filme retrata, me mostrou uma batalha: artistas que vivem a partir da expressão de um lado e burocratas que vivem do controle dessas expressões do outro.
E tive o prazer de ver uma veia artística nascer em um burocrata, e a tristeza de testemunhar o medo do descontrole contaminar uma artista.
Fácil enxergar vítimas e abusadores, mas com um olhar mais afiado, é possível captar como cada um vai montando sua própria estória.
A vida dos outros passa a ser a de si mesmo, os outros como espelhos, sejam eles guias ou desafios no caminho.
Quando uma artista deixa de focar em simplesmente ser, e escolhe fazer para ser aceita, para se sentir segura, afastando-se do Dharma, é presa fácil num mundo de controle externo, dos burocratas. E também quando um burocrata altamente controlado passa a escutar com atenção e cuidado, uma possibilidade enorme surge para deixar o lugar seguro e arriscar-se em ser.
A beleza do jogo entre vilões e heróis – Lila - uma dança, onde a verdade dentro de cada um, ou o abandono dessa verdade, vão criando tonalidades mais cinzas ou mais coloridas.
Nesse filme entendi realmente o que representou a queda do muro. O muro está se desmontando dentro de mim, e um antigo mundo de controle excessivo vai dando lugar a novas formas de ser e se expressar.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
Só para estar junto
Uma linha fina, delicada.
Estar vivo de verdade, é caminhar como um equilibrista, é se perceber vulnerável a cada momento.
Estar vivo é muito delicado, é raro, e vai muito além de perambular pelo mundo.
Envolve aprender a estar só, para estar junto. Inclui ser sensível, com todos os poros, em contato com uma força que existe como pano de fundo.
Sabemos que estamos vivos quando não há compromisso algum que vá além da nossa verdade, de nossa ética mais profunda. Sabemos que estamos no limite do viver quando a abundância toma lugar da percepção de falta.
Falo da experiência de um vivo-morto, no aprendizado do ser só, no meio de tantas lindas companhias. Que está aprendendo que qualquer compromisso no mundo, é somente uma suave consequência do compromisso com a vida, que pulsa por detrás de cada movimento.
Vivo-morto pelas muitas partes, células, órgãos a serem ressucitados e realinhados com tal pulsar.
Vivo pois já se percebe como parte desse fluxo além do tempo.
Morto quando acredita que é dependente, quando compromete sua verdade em troca de algumas migalhas.
Vivo ao sentir uma alegria por detrás de tantas emoções que flutuam ao longo de um só dia. Morto quando se finge de independente, e se coloca frio perante o outro com medo de depender.
Vivo ao abrir os olhos no meio do mundo e encontrar um outro em sua nudez.
Morto ao temer a própria vulnerabilidade e fugir da beleza por detrás da dor.
Estar só é a delicadeza de encontrar um outro "solitário". A solidão nada tem a ver com os papéis que representamos. Estar só é um estado, uma visão de mundo. Estar só é ir ao encontro de si para encontrar o outro por inteiro. É preciso se ver só para se ver conectado realmente.
Aqui solto palavras, de quem nada para cruzar o rio novamente. De quem já se achou vivo, já se viu morto, e se esforça para abrir os olhos no meio da correnteza.
Falo aqui de um lugar suave, em movimento. De um lugar conectado com uma força, que liberta, que permite tamanha sensibilidade e dor. Tamanha sensibilidade e encantamento por esses mundos afora e adentro.
Estar vivo de verdade, é caminhar como um equilibrista, é se perceber vulnerável a cada momento.
Estar vivo é muito delicado, é raro, e vai muito além de perambular pelo mundo.
Envolve aprender a estar só, para estar junto. Inclui ser sensível, com todos os poros, em contato com uma força que existe como pano de fundo.
Sabemos que estamos vivos quando não há compromisso algum que vá além da nossa verdade, de nossa ética mais profunda. Sabemos que estamos no limite do viver quando a abundância toma lugar da percepção de falta.
Falo da experiência de um vivo-morto, no aprendizado do ser só, no meio de tantas lindas companhias. Que está aprendendo que qualquer compromisso no mundo, é somente uma suave consequência do compromisso com a vida, que pulsa por detrás de cada movimento.
Vivo-morto pelas muitas partes, células, órgãos a serem ressucitados e realinhados com tal pulsar.
Vivo pois já se percebe como parte desse fluxo além do tempo.
Morto quando acredita que é dependente, quando compromete sua verdade em troca de algumas migalhas.
Vivo ao sentir uma alegria por detrás de tantas emoções que flutuam ao longo de um só dia. Morto quando se finge de independente, e se coloca frio perante o outro com medo de depender.
Vivo ao abrir os olhos no meio do mundo e encontrar um outro em sua nudez.
Morto ao temer a própria vulnerabilidade e fugir da beleza por detrás da dor.
Estar só é a delicadeza de encontrar um outro "solitário". A solidão nada tem a ver com os papéis que representamos. Estar só é um estado, uma visão de mundo. Estar só é ir ao encontro de si para encontrar o outro por inteiro. É preciso se ver só para se ver conectado realmente.
Aqui solto palavras, de quem nada para cruzar o rio novamente. De quem já se achou vivo, já se viu morto, e se esforça para abrir os olhos no meio da correnteza.
Falo aqui de um lugar suave, em movimento. De um lugar conectado com uma força, que liberta, que permite tamanha sensibilidade e dor. Tamanha sensibilidade e encantamento por esses mundos afora e adentro.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A Gravidade
Sujeito à uma força externa que me empurra ao solo, algo independente da minha vontade me impede de voar, de dar saltos gigantescos. A lei da gravidade.
Assim passamos a acreditar. Desde "que tudo começou", temos a idéia da criação como algo externo, uma lei que limita no tempo e espaço. Provavelmente a saída de Adão e Eva do paraíso, a "queda", é uma metáfora para a crença enraizada na "lei da gravidade".
Assim vamos levando nossas vidas. Sempre há uma razão externa, um motivo fora de mim que me impede de alçar vôos, de dar saltos cada vez mais amplos. E falamos que são motivos graves: a falta de dinheiro, doença na família, violência na cidade. Enfim, a sempre presente lei da gravidade. Tudo fora me limita, tudo muito grave. Vamos nos apoiando em autoridades externas, em "Isaac Newtons" e levando a vida com v minúsculo.
Aqui brinco com uma metáfora. Talvez alguns honestos yoguis nem considerem isso uma metáfora, já que podem saltar com uma leveza extraordinária ou até mesmo levitar. Dizem que Jesus caminhou pelas águas. Uma leveza que foi sendo adquirida por um conhecimento de cada mínima parte do corpo físico, sutil, astral, sem nehuma mágica envolvida. Provavelmente a ciência ainda entenderá muitos desses fenômenos.
Auto-conhecimento parece ser a única saída para a verdadeira liberdade, para escapar da lei da gravidade, de milênios de condicionamento, dos graves motivos externos que reafirmam a impotência a cada momento, da impossibilidade de ir além do passado confirmado.
Já estava escrito no Oráculo de Delfos - quem lá ia, procurando uma resposta fora, deparava-se com a frase gravada nas rochas: "Conhece-te a ti mesmo".
E nessa caminhada para se conhecer é preciso muita vontade, já que as quedas são constantes, repetidas vezes, cada uma dando oportunidade para conhecer mais um canto antes não visto, mais um gancho onde os cabos da gravidade se prendem.
Aqui não falo em aprender a voar como uma águia, mas na possibilidade de olhar todo esse condicionamento do alto, de um lugar onde me observo de fora, e posso perceber onde as amarras se prendem em mim, o que ainda não quero soltar, que medos me levam a fortalecer essa prisão.
Há alguns poucos anos atrás, veria esse texto como fruto da loucura de alguém, ou de uma ingenuidade extrema: como um ser humano pode ir além das leis do mundo?!
Talvez me tornei um "louco" perante o status quo, talvez inocente ao ponto de acreditar que posso voar, além das limitações que sempre acreditei.
Talvez escrevo somente para me convencer dessa possibilidade, onde essa delicada e ainda frágil percepeção ainda necessite de reafirmações, para que logo eu possa ver como uma parte inteira em mim, quem sou.
Sigo escrevendo para mim e para quem fizer algum sentido.
Voar é possível, com os pés enraizados no solo e soltando folhas e frutos ao vento.
Assim passamos a acreditar. Desde "que tudo começou", temos a idéia da criação como algo externo, uma lei que limita no tempo e espaço. Provavelmente a saída de Adão e Eva do paraíso, a "queda", é uma metáfora para a crença enraizada na "lei da gravidade".
Assim vamos levando nossas vidas. Sempre há uma razão externa, um motivo fora de mim que me impede de alçar vôos, de dar saltos cada vez mais amplos. E falamos que são motivos graves: a falta de dinheiro, doença na família, violência na cidade. Enfim, a sempre presente lei da gravidade. Tudo fora me limita, tudo muito grave. Vamos nos apoiando em autoridades externas, em "Isaac Newtons" e levando a vida com v minúsculo.
Aqui brinco com uma metáfora. Talvez alguns honestos yoguis nem considerem isso uma metáfora, já que podem saltar com uma leveza extraordinária ou até mesmo levitar. Dizem que Jesus caminhou pelas águas. Uma leveza que foi sendo adquirida por um conhecimento de cada mínima parte do corpo físico, sutil, astral, sem nehuma mágica envolvida. Provavelmente a ciência ainda entenderá muitos desses fenômenos.
Auto-conhecimento parece ser a única saída para a verdadeira liberdade, para escapar da lei da gravidade, de milênios de condicionamento, dos graves motivos externos que reafirmam a impotência a cada momento, da impossibilidade de ir além do passado confirmado.
Já estava escrito no Oráculo de Delfos - quem lá ia, procurando uma resposta fora, deparava-se com a frase gravada nas rochas: "Conhece-te a ti mesmo".
E nessa caminhada para se conhecer é preciso muita vontade, já que as quedas são constantes, repetidas vezes, cada uma dando oportunidade para conhecer mais um canto antes não visto, mais um gancho onde os cabos da gravidade se prendem.
Aqui não falo em aprender a voar como uma águia, mas na possibilidade de olhar todo esse condicionamento do alto, de um lugar onde me observo de fora, e posso perceber onde as amarras se prendem em mim, o que ainda não quero soltar, que medos me levam a fortalecer essa prisão.
Há alguns poucos anos atrás, veria esse texto como fruto da loucura de alguém, ou de uma ingenuidade extrema: como um ser humano pode ir além das leis do mundo?!
Talvez me tornei um "louco" perante o status quo, talvez inocente ao ponto de acreditar que posso voar, além das limitações que sempre acreditei.
Talvez escrevo somente para me convencer dessa possibilidade, onde essa delicada e ainda frágil percepeção ainda necessite de reafirmações, para que logo eu possa ver como uma parte inteira em mim, quem sou.
Sigo escrevendo para mim e para quem fizer algum sentido.
Voar é possível, com os pés enraizados no solo e soltando folhas e frutos ao vento.
domingo, 13 de setembro de 2009
O Contador de Estórias
Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Set 09 - André Melman.
O cinema sempre me ofereceu um pote de possibilidades, percepções e insights. Desde ET, meu primeiro herói que curava plantas e pessoas com um toque de dedo, os filmes vem expandindo minha visão de mundo e de mim mesmo.
Quero compartilhar os presentes que recebi ao assistir este filme de Luiz Villaça, em cartaz e baseado em fatos reais.
Roberto Carlos teve uma infância bastante comum em capitais brasileiras, viveu entre a recém-criada Febem e as ruas do centro de Belo Horizonte nos anos 70. Seria uma estória a mais de desencontros, que tem seu destino modificado pela presença de Margherit Duvas, pedagoga francesa que se interessa pelo relato de vida do menino, que já era dado como perdido.
Margherit representa aqui o poder da escolha: mesmo com todos os medos, escolhe confiar no que sente. A cada ameaça, seu foco permanecia na inocência, e a criança ferida foi se abrindo para uma possibilidade esquecida: o amor. Roberto Carlos é hoje um contador de estórias de fama internacional, compartilhando sua verdade com crianças de todos tamanhos mundo afora.
Ao escolher ver o real e permanente por trás de tantos medos e traumas, Marguerit ensinou sendo, sem teorias ou filosofias. E eu pude me conectar com essa criança inocente e verdadeira, em mim, em cada um, além das defesas criadas por anos de batalha.
O cinema novamente me trazendo de volta, que bom.
O cinema sempre me ofereceu um pote de possibilidades, percepções e insights. Desde ET, meu primeiro herói que curava plantas e pessoas com um toque de dedo, os filmes vem expandindo minha visão de mundo e de mim mesmo.
Quero compartilhar os presentes que recebi ao assistir este filme de Luiz Villaça, em cartaz e baseado em fatos reais.
Roberto Carlos teve uma infância bastante comum em capitais brasileiras, viveu entre a recém-criada Febem e as ruas do centro de Belo Horizonte nos anos 70. Seria uma estória a mais de desencontros, que tem seu destino modificado pela presença de Margherit Duvas, pedagoga francesa que se interessa pelo relato de vida do menino, que já era dado como perdido.Margherit representa aqui o poder da escolha: mesmo com todos os medos, escolhe confiar no que sente. A cada ameaça, seu foco permanecia na inocência, e a criança ferida foi se abrindo para uma possibilidade esquecida: o amor. Roberto Carlos é hoje um contador de estórias de fama internacional, compartilhando sua verdade com crianças de todos tamanhos mundo afora.
Ao escolher ver o real e permanente por trás de tantos medos e traumas, Marguerit ensinou sendo, sem teorias ou filosofias. E eu pude me conectar com essa criança inocente e verdadeira, em mim, em cada um, além das defesas criadas por anos de batalha.
O cinema novamente me trazendo de volta, que bom.
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