Hoje abri um pedaço de papel dobrado, com algumas anotações que fiz num encontro em Outubro do ano passado. Havia uma frase escrita por mim: "Como usar a deficiência de cada um para o acordar de todos?"
E logo abaixo coloquei alguns exemplos para saber do que eu mesmo estava falando, como: "criando novas possibilidades aos cegos, pode-se criar novos intrumentos de visão para os "cegos" de sensações e percepções", ou "criando novas possibilidades aos mudos e surdos, criamos novas possibilidades aos que são "mudos" de expressão".
Achei interessante a frase que tinha escrito, me trouxe uma certa clareza, um entendimento mais sutil daquelas palavras.
A maior parte do tempo tentamos nos afastar das nossas chamadas deficiências e das dos outros, pois incomodam, já que são limitantes para atuar no mundo, para transformar o que está lá fora.
E damos tanta atenção para o que está lá fora, nos identificamos tanto com o que vemos e ouvimos, que qualquer deficiência torna-se um peso, torna-se também parte dessa identidade.
Seja física, emocional ou psicológica, provavelmente a maior deficiência seja a própria identificação: os meus dramas, minhas limitações, meus traumas e consequentemente a projeção para o drama do outro, as limitações do outro. Assim eu me torno minha deficiência, e o outro a dele.
E se o que chamamos de deficiência não tivesse mais dono, se não fosse mais a minha ou a dele, dela, simplesmente fosse uma grande deficiência, como que um grande corpo com milhões de possibilidades de deficiências. Um corpo através do qual qualquer um poderia se identificar com uma parte dele e dizer que é aquilo. Um corpo que já existe há muito tempo, há centenas de gerações, disponível para essa identificação.
E se fossem tantas gerações se identificando com esse grande corpo, que já estivéssemos completamente condicionados a fazer o mesmo?
E se de repente, de um segundo para o outro, percebessemos, agora, que não somos esse corpo, que podemos nos desligar dele? Que podemos olhar e sentir esse grande corpo sabendo que não somos isso? Talvez a primeira pergunta que viria a seguir, seria então "quem somos, quem sou eu?". Só essa pergunta já vale a pena a experiência.
E essa grande deficiência, ou a de cada um na visão identificada, seria assim utilizada para o acordar de todos, acordar para uma nova maneira de ser e estar, provavelmente menos deficiente, menos dramática e mais em paz.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Re-identificando
Imagine um rio, visto de cima, o leito com suas sinuosidades, curvas.
Imagine os campos, arvores, florestas, bichos, vivendo nas margens desse rio.
Imagine alguns grupos de pescadores, agricultores locais, que pescam , plantam e colhem, vivem a partir da vida que esse rio traz. Se alimentam, trocam, vendem e compram em harmonia.
Imagine que um grupo de pessoas instale um fábrica, uma unidade de produção na margem do rio.
Imagine que essa fábrica utilize alguns insumos tóxicos e a água limpa do rio. E despeje boa parte desses elementos tóxicos de volta nas águas, que seguem rio abaixo.
Imagine que esses elementos tóxicos cheguem até as árvores e bichos nas margens. Imagine que cheguem aos peixes, aos alimentos cultivados, aos pescadores e agricultores.
Imagine que esses pescadores e agricultores, sem peixes, doentes, já não possam exercer suas atividades com antes.
Imagine que alguns desses ex-pescadores, agricultores, passem a trabalhar na fábrica. Outros permanecem sem trabalho. Que aos poucos aquela cultura local vá se perdendo, que as relações vão se desintegrando, que o consumo de bebida aumente, adultos sem função, crianças sem visão.
Imagine que o desejo de comprar uma tv suba exponencialmente nessa "comunidade". Que ter o novo produto, o novo tênis, a nova boneca, seja a máxima local. Imagine que o dinheiro seja escasso, que os valores vão se perdendo, o ter passe a ser mais importante que viver. Que o rio torna-se somente um lixão me movimento.
Só imagine.
Agora imagine uma pequena mudança: os donos e gerentes da fábrica devem seguir uma nova regra. A água a ser utilizada na produção deve ser captada abaixo ( a jusante) do local onde os dejetos são despejados.
Imagine que a água com toxinas não servem para a fábrica continuar com a sua produção. Essa é fácil de imaginar. Imagine que eles vão precisar achar uma nova solução.
Imagine que os donos da fábrica entendam assim que o rio começa antes e continua depois dessa fábrica. Que a fábrica não é um elemento separado do todo onde está.
Imagine que a percepção de "quem sou", a princípio uma fábrica, se amplie para todo o rio, antes e depois dessa fábrica. Imagine que esse "eu" se amplie para toda a mata e bichos nas margens do rio. Que inclua os peixes, pescadores, agricultores, adultos e crianças.
Imagine que que esse "quem sou" continue se expandindo, pra todas as relações, para os clientes, parceiros, para todos diretamente e indiretamente envolvidos, para as matas vizinhas, rios, mares.
Dá pra imaginar?
Imagine os campos, arvores, florestas, bichos, vivendo nas margens desse rio.
Imagine alguns grupos de pescadores, agricultores locais, que pescam , plantam e colhem, vivem a partir da vida que esse rio traz. Se alimentam, trocam, vendem e compram em harmonia.
Imagine que um grupo de pessoas instale um fábrica, uma unidade de produção na margem do rio.
Imagine que essa fábrica utilize alguns insumos tóxicos e a água limpa do rio. E despeje boa parte desses elementos tóxicos de volta nas águas, que seguem rio abaixo.
Imagine que esses elementos tóxicos cheguem até as árvores e bichos nas margens. Imagine que cheguem aos peixes, aos alimentos cultivados, aos pescadores e agricultores.
Imagine que esses pescadores e agricultores, sem peixes, doentes, já não possam exercer suas atividades com antes.
Imagine que alguns desses ex-pescadores, agricultores, passem a trabalhar na fábrica. Outros permanecem sem trabalho. Que aos poucos aquela cultura local vá se perdendo, que as relações vão se desintegrando, que o consumo de bebida aumente, adultos sem função, crianças sem visão.
Imagine que o desejo de comprar uma tv suba exponencialmente nessa "comunidade". Que ter o novo produto, o novo tênis, a nova boneca, seja a máxima local. Imagine que o dinheiro seja escasso, que os valores vão se perdendo, o ter passe a ser mais importante que viver. Que o rio torna-se somente um lixão me movimento.
Só imagine.
Agora imagine uma pequena mudança: os donos e gerentes da fábrica devem seguir uma nova regra. A água a ser utilizada na produção deve ser captada abaixo ( a jusante) do local onde os dejetos são despejados.
Imagine que a água com toxinas não servem para a fábrica continuar com a sua produção. Essa é fácil de imaginar. Imagine que eles vão precisar achar uma nova solução.
Imagine que os donos da fábrica entendam assim que o rio começa antes e continua depois dessa fábrica. Que a fábrica não é um elemento separado do todo onde está.
Imagine que a percepção de "quem sou", a princípio uma fábrica, se amplie para todo o rio, antes e depois dessa fábrica. Imagine que esse "eu" se amplie para toda a mata e bichos nas margens do rio. Que inclua os peixes, pescadores, agricultores, adultos e crianças.
Imagine que que esse "quem sou" continue se expandindo, pra todas as relações, para os clientes, parceiros, para todos diretamente e indiretamente envolvidos, para as matas vizinhas, rios, mares.
Dá pra imaginar?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Pausa para inocência
Voltar pode ser tão ou mais interessante que partir. É como reencontrar consigo mesmo antes da partida, uma oportunidade para olhar de um novo ponto-de-vista, cada relacionamento com pessoas próximas, com lugares, espaços, objetos que por aqui permaneceram durante a viagem.
Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.
Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.
O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.
Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.

Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.
E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.
E compartilho das palavras de Gonzaguinha...
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Voltando da bolha

Os últimos dias foram cheios no Schumacher College e nas redondezas. Saindo da bolha, uma força que praticamente impediu de me conectar com qualquer assunto fora do que estava vivendo aqui.
A sensação agora de estar sendo praticamente expulso da bolha, como que sendo colocado pra fora da casca confortável, do ambiente "controlável". E está sendo ótimo!
Foram duas semanas com um grupo de empreendedores de diversos países, iniciando ou desenvolvendo projetos e negócios. De alimentos a imigrantes, de maternidade a crianças, de construção a flores, focos diferentes mas todos voltados para o desenvolvimento de conexões reais entre as pessoas, e com o planeta Terra, esse organismo vivo.
Um grupo que me ensinou muito sobre quem sou e onde estou, que me encheu de esperança, de novas possibilidades, de confiança.
Num dos pontos altos do curso, na sexta-feira passada, tivemos o privilégio de estar com uma pessoa incrível durante o dia todo, Tim Macartney, um ex-jardineiro que hoje dirige um centro de liderança com clientes que vão de crianças a altos executivos de multinacionais. Um grande presente de aniversário. Diria que não vi nada de novo, nada que nunca tinha lido, pensado ou mesmo vivido - mas o contexto, a presença experienciada, me trouxe muito conforto e paz no caminho, uma certa tranquilidade ao perceber com clareza que liderar é simplesmente ser, verdadeiramente.
Falar sobre liderança com um grupo de empreendedores ávidos por desenvolver seus sonhos na prática, dentro de uma escola inglesa onde a cultura do pensar praticamente deixa em segundo plano a possibilidade de sentir (mesmo sendo uma escola com objeitvos holísticos) , poderia se tornar somente mais um daqueles guias sem vida, um daqueles passo-a-passo para se moldar, se inspirando nos grandes líderes do passado.
Não falamos de nenhum líder, não seguimos nenhum modelo de liderança durante o dia. Não montamos juntos uma estrutura de um plano de negócios durante o encontro. Simplesmente falamos de nossos medos, do que escondemos debaixo do tapete, dos nossos "wild dogs" - os cachorros selvagens da nossa personalidade que quando reprimidos reaparecem de formas sombrias.
Foi um dia onde o grupo se aproximou, onde as idealizações foram perdendo força, onde a honestidade consigo mesmo era a única coisa que servia pra se comunicar.
A partir desse lugar pudemos investigar mais a fundo nossos projetos nos dias que se seguiram. Investigar os principais dons, os próximos passos, organizar as idéias, apresentar pra diversos públicos, realinhar expectativas. E principalmente, pelo menos no meu caso, abrir mão do controle, da propriedade individual do projeto. Entendendo com mais clareza agora, que só serei feliz desenvolvendo um projeto aprendendo a receber amigos, mentores, parceiros, investidores e profissionais nesse espaço de desenvolvimento. Pessoas que estarão se comprometendo com o mesmo sonho, co-criando.
Hoje, aqui em Dartington na região de Devon, o céu está limpo, um azul brilhante, folhas cobertas pelo gelo, um silêncio no ar, uma sensação de espaço aberto, de nvoas possibilidades. Agradeço essa terra linda, aos encontros, aos amigos de hoje e sempre.
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