terça-feira, 6 de abril de 2010

O Equilibrista - Satcine

Coluna Satcine publicada na revista Prana Yoga Journal Mar 2010 - André Melman

O Equilibrista (DVD)
Direção: James Marsh, 2008


Filme vencedor do Oscar de melhor documentário no ano passado, narra a estória do francês Philippe Petit, que apesar do pequeno sobrenome, planejou durante anos e realizou a façanha de atravessar a distância entre as então existentes torres gêmeas do WTC em Nova Iorque. Detalhe, caminhou durante uma hora sobre um cabo de aço acima de 400 metros de altura, tudo ilegalmente.

Quando assisti pela primeira vez no cinema, tive a sensação de perder o chão, literalmente. Como poderia uma pessoa continuar focada por tantos anos na realização de uma visão, apesar de todos os medos e inseguranças a sua volta?



O Equilibrista, ou "Homem sobre o cabo" como seria a tradução do original, traz o percurso de um sonhador. O perigo e a morte para ele, eram despertadores - um chamado para a vida, para o sonho, para a atenção plena.

A narração, através de entrevistas com outros participantes dessa epopéia vivida há mais de 25 anos, trouxe também um outro ponto-de-vista: a linha fina que é o foco no processo, a cada momento. Como é possível cair para um lado, a desistência do sonho, e pra o outro, o apego ao resultado além de qualquer consequência.


Linda a cena da travessia final ao som minimalista de Eric Satie. A pós-conquista também gera material para reflexão, pois o fio da navalha continua, mesmo com os pés firmes no chão.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Eckhart Tolle: entrevista Janeiro 2010

Na edição de Janeiro, o artigo de capa da Prana Yoga Journal foi uma entrevista que fiz com Eckhart Tolle no final do ano passado. Compartilho aqui para quem ainda não teve a oportunidade de ler esta entrevista com ele em português, pois a revista já saiu das bancas. Infelizmente não tenho como trazer aqui todas as belas ilustrações do artigo.
Longo texto para um blog, mas vale a pena ler aos poucos.




VOCÊ, ECKHART TOLLE E O AGORA

POR ANDRÉ MELMAN

ILUSTRAÇÕES: EVERSON NAZARI

Foi com O poder do Agora que conheci o trabalho do alemão Eckhart Tolle, há sete anos. Trabalhando no mercado financeiro e praticante de Ashtanga Yoga, não me identifiquei. Julguei ser mais uma autoajuda para o mercado norte-americano e doei o livro um tempo depois.

Algumas outras experiências vieram. Viagem à Índia, contato com obras de J. Krishnamurti e Ramana Maharsi, retiros de meditação e uma nova prática de Yoga, mais ampla que asanas, foi surgindo dentro de mim e ao meu redor. 

Em 2008, no Egito, comprei outro livro dele, Um novo mundo – O despertar de uma nova consciência. O preconceito sumiu. Era como uma continuidade dos ensinamentos de Ramana, em um novo contexto ainda mais próximo de mim. Escrevi um e-mail de agradecimento, dispondo-me a ajudar, de forma até inocente, no que fosse possível para trazer Eckhart ao País. Ele já era uma figura pop no mundo, tendo até conduzido um programa de seis semanas pela web com Oprah Winfrey, apresentadora norte-americana que o elegeu como seu guru. Vendeu mais de dez milhões de livros traduzidos para 33 línguas. Nasceu Ulrich e tornou-se Eckhart (nome de um mestre da Alemanha medieval) após uma epifania, aos 29 anos, que marcou o fim de uma vida infeliz. Foi pesquisador na Universidade de Cambridge e andarilho em Londres. Já viveu na Espanha, na Inglaterra e atualmente sua base fica no Canadá, mas passa a maior parte do tempo dando palestras pelo mundo. 

A resposta de Eckhart ao meu e-mail foi simpática, mas não muito animadora: ele estava em retiro e sem planos para o Brasil.
Em uma conversa com a Greice (que trabalha nesta revista), sugeri que ela fizesse um artigo sobre Eckhart. Ouvi a melhor resposta: “Faça você!”. Foi o início de uma jornada para conseguir a primeira entrevista de Eckhart Tolle para uma revista brasileira. Meses e e-mails depois — ele é conhecido por não conceder muitas entrevistas —, recebi um contato, data e horário marcados para conversar com ele via Skype.

Foi uma surpresa ouvir a voz de Eckhart do outro lado. Esperava ao menos uma secretária intermediando. A conversa foi inesquecível. Ele ria com muita naturalidade de coisas que já deve ter repetido centenas de vezes — e estava mais presente e disponível que eu como entrevistador.

Olá.

Olá, sou André, da Prana Yoga Journal, Brasil. 

Sim?

Você é o Eckhart Tolle?

Sim. Sou eu.

Quem bom te conhecer, te ouvir...

Bom ouvir você também! Como vai?

Estou bem, muito feliz e honrado por esta oportunidade.

Obrigado. Uma pergunta que tenho: muitas das pessoas que lêem a revista estão interessadas em espiritualidade? Talvez já tenham algum conhecimento ou estão trabalhando com si mesmas fisicamente, espiritualmente...

Sim. Você está correto. Acredito que suas palavras podem ser de muita ajuda para praticantes e professores aqui no Brasil.

Sim.

Posso te chamar de Eckhart?

Sim, claro, todos me chamam de Eckhart!

Eckhart, a sua época de infância e adolescência foi bem triste e sofrida, até os 29 anos de idade. Sob seu ponto vista hoje, você poderia ter agido de outra forma para reduzir sua dor?

Bem, até os 29 anos eu vivi em um diferente estado de consciência. Se, como criança ou um jovem adulto, eu estivesse no mesmo estado de consciência em que estou agora, claro que poderia lidar com os problemas externos e com minha própria mente, mas na época não era possível, pois eu estava em outro estágio de consciência, identificado com a minha mente. Até os 29 anos, minha mente era bem disfuncional, produzindo uma quantidade enorme de pensamentos negativos. Eu vivia em estados de depressão e contínua ansiedade. Foi somente aos 29 que ocorreu a separação entre a consciência maior de quem sou — o Eu Sou que vai além do eu pessoal — e o funcionamento da mente. Meu sofrimento era causado aparentemente por circunstâncias externas, mas primariamente pela minha própria mente. O sofrimento é sempre uma reação aos eventos externos. 

Sobre a experiência aos 29 de idade, poderia contar?

Como eu descrevi na introdução do livro O poder do Agora, acordei no meio da noite, o que não era incomum, e me sentia extremamente ansioso e deprimido com a vida. Muitos pensamentos passando pela minha cabeça, meu corpo estava tenso e o sofrimento era intenso. De repente, um pensamento: eu não posso mais viver mais comigo mesmo... eu não posso mais viver mais comigo mesmo. Naquele momento aquele era somente mais um pensamento negativo, mas que disparou algo. Eu me distanciei daquele pensamento, e pude olhar para ele. Pareceu estranho quando olhei para aquele “eu não posso mais viver mais comigo mesmo”. Fiquei perplexo, pois nesse pensamento havia duas entidades — uma era o “eu” e outra era o “eu mesmo”, com a qual “eu” não conseguia mais viver (risadas). Pude ver uma divisão e me perguntei: eu sou um ou dois? Se não posso viver comigo mesmo, quem sou eu? Quem, ou o que é o “eu mesmo” (“myself”) com quem não posso viver? Este último pensamento foi muito importante, pois depois deste, eu não consegui uma resposta no nível do pensamento, conceitual. 

Mas uma resposta mais profunda surgiu, e nessa resposta percebi quem eu era, mas não poderia explicar. Aquele eu infeliz não era quem eu era realmente. Eu era a consciência mais profunda por detrás dele. Naquele momento ocorreu uma separação entre o pensamento e a consciência. A consciência já não estava mais presa nos movimentos do pensar, havia se libertado da sua identificação com o pensamento — e esse pensamento contínuo era o “eu mesmo”, o eu pessoal — basicamente uma ilusão, uma percepção ilusória de identidade. Na manhã seguinte acordei profundamente em paz, e não sabia por quê. Tenho estado, desde então, sempre em paz (risadas)! Mais pra frente, alguns monges budistas me explicaram que o ensinamento básico de Buda é que o “eu pessoal” (self) é uma entidade ilusória, e assim percebi que era exatamente o que havia acontecido comigo naquela noite — a percepção do eu pessoal como ilusório.

Eckhart, a maioria das pessoas percebe o despertar como um processo que envolve tempo, mas no seu caso foi praticamente instantâneo. É necessário tempo para estar aberto a um acontecimento desse?

Bem, você poderia dizer que eu tive de passar por anos de sofrimento antes de estar pronto para sair do sofrimento, sim. Isso não me aconteceu aos 20 anos, quando eu já era infeliz, mas aos 29. Poderiam dizer que tive de passar um período de sofrimento antes de estar pronto para acordar — e este é o caso de muita gente. Antes de estarem abertas a isso, elas precisam passar por certa quantidade de sofrimento. 

O que estou dizendo é que muitos interessados em espiritualidade, que praticam alguma disciplina espiritual, como meditação ou Yoga, frequentemente acreditam que em algum momento futuro talvez se tornarão iluminados ou libertos. Eles projetam algum tipo de versão melhorada de quem são no futuro. Por exemplo, quando pessoas meditam para atingir algo por meio disso, tentam se tornar melhores nisso. A grande falácia na prática espiritual é projetar um futuro. O importante é perceber quem você é, pois é disso que estamos realmente falando aqui, em um nível mais profundo que o pensar, mais profundo que o corpo, e tudo mais que pode ter se identificado em sua vida. Quem eu sou além da minha profissão, meu corpo físico, minha nacionalidade, meu passado, essas coisas com que me detenho temporariamente. 

A realização só pode acontecer no momento presente. Você não pode encontrar quem você é em um nível mais profundo adicionando mais futuro, tornando isso um alvo futuro, algo como "em algum momento no futuro eu vou perceber quem eu sou”. Você só pode perceber quem é agora, mas muitas pessoas, antes de estarem totalmente abertas para esse momento, podem precisar de sofrimento para que o ego pessoal seja desmanchado gradualmente.

O ego produz sofrimento, mas, paradoxalmente, o sofrimento gerado pelo ego, eventualmente, também dissolve o ego. Isso foi exatamente o que ocorreu comigo, o sofrimento tornou-se tão intenso que não pude mais suportar. O ego produziu o sofrimento, mas teve de se dissolver, pois não seria mais suportável. É quase paradoxal (risadas), o ego cria a possibilidade para esse “estar pronto” ("readyness"), para, eventualmente, tornar-se livre dele.

O tempo é um assunto bastante misterioso. Como é o mundo visto por alguém, como você, não identificado com o tempo?

O principal é que o tempo, o tempo psicológico que estamos falando aqui, é produzido pelo movimento do pensar. O tempo psicológico, que é a constante identificação com o passado e constante projeção no futuro. O tempo psicológico somente pode dissolver-se se você não mais se identifica com seus próprios pensamentos. Ser livre do tempo é o mesmo que ser livre da sua mente.

A maneira mais simples e prática de estar livre do tempo, colocando em termos simples, é não acreditar em cada pensamento que aparece na sua cabeça. Esse é o significado do acordar espiritual, o momento em que você percebe, torna-se consciente da voz na sua cabeça, do processo do pensamento, que para a maioria são somente pensamentos. Isso significa que, de repente, você se torna consciente da mente, que existe uma dimensão da consciência que é mais profunda do que a mente pensante. E é sempre a partir daí que se pode observar o que a mente pensativa está fazendo. Para muitas pessoas, isso acontece quando percebem que estavam se identificando com pensamentos negativos por muitos anos. Pensamentos negativos sobre quem são, julgamentos sobre outras pessoas. E de repente, um momento chega em que elas percebem em que tipos de pensamento haviam estado profundamente ligadas. Esse é o começo do despertar espiritual, perceber que você não é essa voz na cabeça, que não é seus pensamentos, que você é a consciência, o entendimento de que é a própria consciência.

Essa é a base de todo e qualquer ensinamento espiritual, em última instância, independente da forma como é expressado. E certamente o centro do meu ensinamento é "desidentificar-se" da mente e perceber que todos os pensamentos na minha cabeça são condicionados pelo passado. E que não são tão importantes, há algo muito mais importante. Para muitas pessoas, seu senso de identidade, o senso de quem elas são, é conectado com o que elas dizem para elas mesmas nas suas mentes sobre quem elas são (risadas). Elas têm certa opinião sobre quem elas são. Se alguém o critica ou discute com você, sobre algo de onde você tira o teu senso de identidade, você imediatamente fica com raiva, ou defensivo, ou com medo. Pois essa pessoa está atacando o seu senso de identidade. A necessidade de estar certo é parte disso. Quando alguém contraria a sua razão, você fica com raiva, pois está se identificando com uma posição mental, com uma opinião, com um ponto de vista. Ao estar identificado, se alguém questiona ou diz que está errado, inconscientemente é percebido como um ataque a quem você é. Claro que não é quem você é, é uma ilusão. Algumas pessoas chegam a tornarem-se violentas fisicamente em uma discussão (mais risadas). É bem insano, mas não incomum. 

Por que acontece? Porque as pessoas não sabem quem elas são, pensam ser a entidade criada pela mente. No momento em que você percebe que é livre dessa entidade, você pode funcionar nesse mundo com muito mais facilidade — quando alguém questiona a sua verdade, você pode simplesmente dizer: tudo bem, me explique porque estou errado, talvez você esteja certo. Você já não tem mais a necessidade de defender-se. É uma ilusão!

Quando você fala sobre o ego, é o mesmo que você chama de “corpo de dor” nos seus livros?

Não, o corpo de dor é o aspecto emocional do ego. O ego possui um aspecto mental, que são os pensamentos com que você se identifica, especialmente pensamentos habituais sobre quem você é, e o ego possui também um aspecto emocional, emoções habituais que você experiencia. O corpo de dor é o acúmulo de dores emocionais experienciadas no passado, que ainda vivem alojadas no corpo como um campo de energia. Essa é outra coisa muito importante para se estar consciente, pois é tão importante não se identificar com suas emoções como é não identificar-se com os seus pensamentos. 
 Estou feliz que tenha feito esta pergunta, porque nos leva ao próximo ponto: da mesma forma que você pode dar um passo, distanciar-se dos seus pensamentos e perceber que você não é o seu pensamento, mas sim a consciência por detrás; da mesma forma você pode sentir ou perceber sua emoção quando ela surge, e dar-se conta de que não é você. 

Às vezes gosto de usar a expressão: você percebe que você não é a emoção, mas sim o espaço no qual a emoção surge. Você não é o pensamento, mas sim o espaço no qual o pensamento surge. Junto com isso vem uma paz interna e também uma aceitação interna. Isso é muito importante, a aceitação interna de tudo que possa surgir neste momento, porque já está lá, surgindo. Em vez de lutar contra uma emoção, pensar “eu não quero sentir isso” quando já estiver sentindo, simplesmente aceitar a emoção que surge...

Essa prática é um aspecto importante para descolar-se da emoção, pois quando você nega ou reprime a emoção, somente torna-a mais forte. Assim pode dar um passo para trás e observar: sim, aí está! Você é o espaço antes disso.

Isso se aplica não somente aos pensamentos e emoções, mas a tudo que acontece na sua vida neste momento, tudo que surge externamente, qualquer situação que você se veja dentro. É exatamente como funciona! Muitas pessoas vivem negando continuamente, sem aceitar o momento presente, pois querem chegar em outro momento onde acham que estarão melhor (risadas). Você precisa perceber que não existe esse tal de momento futuro. A vida consiste no momento presente, a vida se desdobra no espaço do momento presente. Em outras palavras, o momento presente é tudo que você tem e sempre teve na sua vida, nunca houve e nunca haverá nada na sua vida com exceção do momento presente. 

Você somente experimenta a vida no momento presente, e precisa entender isso não somente no nível intelectual, mas sentir ou experienciar a verdade nessas palavras. É isso, tudo que você sempre possuiu é este momento. É de vital importância uma relação correta com o momento presente, pois significa ter uma relação correta com a própria vida. 

Aceitação não somente dos pensamentos e emoções, mas também de tudo que acontece nesse momento, pois não pode ser de outra forma, já é. Aceite esse momento como ele é, pois se há conflito com o que é, você sofre (risos). 

Aceite então tudo que surge. Algo dá errado, digamos, o carro quebra, ou você tem um acidente, de repente você perde algo... isso é exatamente como é. Essa é uma importante prática espiritual, aprender a ser amigável com o “assim é” (“isness”) do momento presente. E isso novamente abre em você a sensação de espaço interno, você não é a entidade reativa baseada nos pensamentos e emoções, você é a consciência mais profunda. E assim pode responder a uma situação de um diferente estado de consciência, em vez de reagir a partir de seu velho condicionamento. E é essa a beleza, você pode encarar o momento presente, e uma inteligência muito maior que seu pensamento condicionado limitado pode repentinamente operar, milagrosamente. O milagre, quando você pode lidar com a vida, que é sempre o momento presente, já não mais confinado no condicionamento limitado da sua mente. 
 A mente pode ainda estar ativa, mas pode ser um veículo para uma inteligência maior. O que é esta inteligência? É a inteligência por detrás da mente, que está lá no calmo silêncio da própria consciência.

Todo mundo já possui isso, mas a maioria não sabe que essa dimensão existe. Este é mais um motivo pelo qual você não necessita do futuro, você não pode descobrir isso no futuro, essa dimensão dentro de você mesmo. No momento em que você pensa que pode descobrir isso no futuro, está olhando para um pensamento, e o futuro é sempre um pensamento na sua cabeça, você nunca pode experimentá-lo. Existe somente como um pensamento na sua cabeça (risadas).

Se você olha para o futuro para encontrar essa dimensão mais profunda em si mesmo, nunca encontrará e ficará muito frustrado. Pois em termos absolutos, não há futuro, somente um pensamento. Essa não é uma filosofia da qual estou tentando convencer as pessoas. Estou pedindo a todos para verificar em sua própria experiência, é muito simples, verificar que não há futuro. E se alguém duvidar, perguntarei: você já experienciou o futuro alguma vez? Claro que não, você sempre experiencia o momento presente.

Se você olha para o futuro para encontrar essa dimensão mais profunda em si mesmo, a qual está além do pensamento, você está na verdade olhando para o pensamento para achar essa dimensão mais profunda, uma ilusão. É por isso que muitos praticantes espirituais não chegam a lugar algum (risadas).

A resposta — e a essência da espiritualidade — está na descoberta da dimensão vertical em você. Não na dimensão horizontal de passado e futuro, não é onde mora a realização espiritual, mas sim na dimensão vertical. Você pode ver como na cruz: a cruz é a intersecção entre a dimensão vertical e a horizontal. Isso é a vida realmente, mas a maioria só enxerga a dimensão horizontal, passado e futuro, e perde a dimensão vertical, que é o agora. Acreditam que o agora não é importante, o que é uma falácia tremenda, uma grande ilusão. Se você acha que o passado e o futuro são mais importantes que este momento, sua vida é disfuncional, e isso é normal, como a maioria das pessoas ainda vive (risadas). 

Você vai descobrir que na sua vida não existe somente a dimensão horizontal do passado e do futuro (que continua ali), mas que existe também a dimensão vertical da profundidade. Na profundidade você encontra quem você é, a profundidade é inseparável do momento presente. 

Para a realização espiritual, ou para perceber quem você é além do eu produzido pela mente, além do corpo, não há nada que necessite adicionar. Nada que necessite adicionar a você para estar mais completo, para então se encontrar, é uma falácia. 

Há muita coisa na dimensão horizontal que é útil, não nego isso. Você necessita da dimensão horizontal, é parte da sua educação, o conhecimento que foi adquirido é parte dessa dimensão. Você tem certo conhecimento na sua mente, aprendeu coisas na escola, na universidade ou em experiências de vida. O tempo é necessário para aprender a tocar piano, para tornar-se bom em Yoga, isso tudo está na dimensão horizontal. 

Não nego que esse nível também exista, mas se é a única dimensão que conhece, então sua vida é muita limitada, e acaba por encontrar muito sofrimento, frustração. O preenchimento mais profundo nunca vem para você por meio da dimensão horizontal. Qualquer conquista no passado ou qualquer que seja a conquista no futuro que adicione algo a você, nunca irá trazer o preenchimento profundo, a felicidade completa. Sobre felicidade, não uso essa palavra com frequência para não parecer superficial — uma profunda sensação de preenchimento é mais profundo que felicidade. A sensação de unidade com a vida. Essa possibilidade está aí para qualquer um, para todos. Mas ela não se abre até que você se dê conta da existência da dimensão vertical.

A dimensão vertical abre-se de uma maneira bem simples, abre-se assim que você diz sim ao momento presente, internamente, em vez de lutar, fugir, negar ou achar que o momento futuro será melhor. Então, quando você torna-se um com o momento presente, isso se abre e você não mais é um inimigo do momento presente, você não mais o nega e vê quão importante ele é. Quando você faz isso, e começa a viver dessa maneira, algo da dimensão vertical se abre dentro de você. E de repente... oh!... a vida torna-se o momento presente, tudo se torna mais vivo e intenso. É a primeira coisa que as pessoas percebem, elas são o momento presente. Então, talvez eu esteja falando muito (risos). Mas é tudo interconectado. Se me faz qualquer pergunta, irá trazer tudo... eu não posso responder a uma pergunta sem trazer a essência em si do ensinamento.

Entendo. Eckhart, confiança e fé são o único caminho para irmos além do condicionamento?

De uma forma geral, você pode dizer: você confia na vida? Ou você possui uma desconfiança básica na vida? Claro, se você desconfia da vida, desconfia das outras pessoas, pois são parte da vida. Basicamente a fé e a confiança são a ausência do medo. No momento em que você não está mais dominado pelo medo, uma sensação de vivacidade e conectividade brota. E você confia na vida. No momento em que o medo surge, você não mais pode confiar na vida. Em vez de tentar achar uma maneira de tornar-se uma pessoa que confia ou tem fé, realmente, o mais importante é ver se pode estar livre do medo. E para estar livre do medo, é preciso saber como o medo surge, como isso acontece, por que estou sentindo tanto medo. 

Se você se pergunta: por que estou com tanta frequência nesse estado de medo? Ou ansiedade, ou mesmo estresse, que é um tipo de medo. Quando você se pergunta como isso surge, momentaneamente se torna consciente do medo e percebe que está com medo, pois a mente está continuamente se projetando para o próximo momento. E o próximo momento é incerto, você não pode controlar. O futuro é incerto. O medo surge por não estar em contato com o momento presente. No momento presente, o medo psicológico não brota; surge somente quando pensa o que vai acontecer a seguir.

Novamente, confiança e fé vêm quando você não mais está completamente identificado com a sua mente. Não somente fé e confiança, mas também amor. Não estou falando aqui do amor do ego — o ego diz “eu te amo”, mas quer dizer “eu preciso de você, eu quero você”. Se a outra pessoa não cumpre as expectativas, as necessidades do ego, imediatamente o chamado “amor” converte-se em ódio. Você pode estar numa relação romântica e de repente o amor vira ódio (risadas)! O amor real é algo muito mais profundo, não somente em relação aos seres humanos, mas amor pela natureza, por exemplo, interação amorosa com a natureza. O amor em relação a qualquer ser humano que encontre não precisa ser uma relação próxima. E você tem uma sensação de bondade afetuosa (“loving kindness”), expressão que os budistas usam.

O que surge quando encontra outro ser humano: bondade afetuosa ou medo?

Tudo volta ao mesmo ponto: se estou identificado com o ego, o ser construído pela mente, não posso amar outro ser humano. Se não sei quem sou em um nível mais profundo, se me identifico com uma falsa identidade, vou sempre querer usar o outro ser humano — ou vou querer que o outro faça algo por mim, ou temer que fará algo contra mim. Essas são as relações do ego.

Para estar numa relação de amorosidade generosa, ter uma sensação de confiança na vida, você necessita ter ido mais profundo dentro de você, mais profundo do que a mente pensante, na dimensão vertical. É a partir dessa dimensão de profundidade que todas essas coisas incríveis brotam, as únicas coisas que fazem a vida valer a pena: amor, confiança, a habilidade de ver a beleza ao redor, beleza não somente nos seres humanos — no mundo da natureza e nas coisas mais insignificantes. Mas quando está preso na mente julgadora, você não vê isso. Novamente, somente repetindo, fé e confiança só podem estar quando o medo se vai. 

E o medo somente pode ir embora quando você não está identificado com o ser produzido pela mente, que é criado pela contínua identificação com os pensamentos. Bem simples!

Ouvindo você agora é bem simples mesmo! (risadas) Eckhart, quando se fala em eliminar todo e qualquer desejo, pode ser uma batalha bem complicada. É possível eliminar os desejos?

Boa pergunta. Isso é o que o budismo ensina, não eu. Em vez disso, perceba que o momento presente é primordial na sua vida. O que é desejo? Desejo significa que você necessita adicionar certas coisas a quem você é. E por que você acha que precisa adicionar disso? Sejam mais posses — eu preciso de mais, de uma casa melhor para me sentir mais importante, de uma conta bancária maior, de mais reconhecimento, de um emprego melhor, mais sexo, mais comida! Não há fim. Muitas pessoas, infelizmente, vivem assim, para os seus desejos. Não estou dizendo que você não deve trabalhar, que não deve tentar um emprego melhor, por que não? Não estou dizendo que não deva adquirir mais conhecimento, se está interessado em coisas, por que não? Que você não deva até mesmo explorar, ter mais relacionamentos; se é o que quer, por que não? Viajar para outros países, ter mais experiências... é a dimensão horizontal novamente, não há nada de errado com a dimensão horizontal! Entretanto, se você está procurando por preenchimento e felicidade por meio dos seus desejos, nunca conseguirá. É parte do ensinamento de Buda, que não interessa qual desejo você atinja, ele jamais te fará satisfeito. 

Pode satisfazer por um momento breve, por um dia, dois, algumas semanas ou meses. Depois a insatisfação surgirá novamente, novos desejos virão. Então, podemos dizer que existem duas maneiras de encontrar infelicidade ou sofrimento: uma é conseguir o que se quer e a outra é não conseguir o que se quer! Se você está preso na dimensão horizontal da vida, não se sentirá preenchido por muito tempo. Buda viu isso e disse “livre-se dos desejos”, mas para mim é algo quase impossível. Em vez disso, vá mais profundo no momento presente. Quanto mais profundo você vai, maior a sensação de conectividade, um sentimento profundo de vivacidade, de ser, presença. Quando você conecta-se com essa profunda sensação de estar vivo, todo o mundo fora parecerá mais vivo, vibrante, novo, fresco. 

Essa é a fonte de satisfação na vida, e não alguma coisa ou desejo que possa conquistar. Conecte-se com a fonte da satisfação na vida e os desejos não mais se tornam um problema. Você ainda pode ter alguns desejos superficiais, como uma casa melhor, uma viagem, mas já não são mais os desejos que prometem a felicidade ou o preenchimento. São superficiais, como brincar com as formas da vida.

Você pode curtir o jogo da vida, mas não está procurando mais por preenchimento por meio dos desejos. Simplesmente leva como um jogo, uma brincadeira. Não há nada de errado em brincar, é bonito brincar. Mas quando espera algo da dimensão horizontal — que podemos também chamar o “mundo” —, quando espera algo deste mundo, ele não pode te dar. Em outras palavras, quando você diz ao mundo “faça-me feliz e diga quem eu sou”, o mundo não pode fazer isso! Nada neste mundo te fará feliz, nada neste mundo te dará preenchimento completo. Buda claramente estava correto, vendo que, ao seguir os desejos, nunca terá a sensação de chegar, encontrar. Você nunca chega! (risadas)

Como podemos usar práticas corporais, como Hatha Yoga ou corrida, como um portal para essa dimensão vertical?

Hatha Yoga, Tai Chi, Chi Kung e outras práticas ajudam a levar a sua atenção consciente para dentro do campo de energia interno do corpo. Isso é muito importante, porque o corpo é um caminho, um ponto de acesso à vitalidade, às profundezas do momento presente. Parte dos meus ensinamentos é que as pessoas se tornem conscientes de que seu corpo está vivo. Ou seja, sinta que dentro de suas mãos, braços, pés, pernas existe uma vivacidade vibrante. Atenção em direção ao corpo interno percebendo que o corpo inteiro está permeado por uma sensação de vivacidade, a energia dentro do seu corpo, a energia da vida. Às vezes digo que é uma âncora para o momento presente. 

Enquanto alguém lê essas palavras, pode sentir que seu corpo interno está vivo? O corpo inteiro, dos pés à cabeça, vivo — a prática de sentir isso leva a sua atenção, que normalmente fica dentro da cabeça, no processo de pensar, para fora da cabeça. Você pensa menos e se torna mais presente. Isso não é somente benéfico do ponto de vista da saúde, pois é uma grande fonte de autocura estar conectado com o corpo interno, habitar o corpo conscientemente — recomendo às pessoas que assim que sintam chegar o menor sintoma de mal-estar, como uma gripe, que imediatamente fiquem intensamente presentes no corpo, especialmente antes de ir para a cama à noite ou ao acordar pela manhã. É autocurador. Mas além da cura física, também tira o foco da cabeça, das identificações com os pensamentos. Ao estar por inteiro no seu corpo, dificilmente há qualquer pensamento.

Então, o corpo pode ser uma porta para este estado de presença, para a dimensão vertical. Uma parte muito importante dessa prática é a atenção consciente no corpo físico. Não no externo, mas no interno. Não importa como é esse corpo externo, se não é perfeito — a maioria dos corpos não é perfeita, está bem —, nós vamos para o corpo interno. A prática de Yoga ou Tai Chi ajuda nisso, mas como complemento, todos devem desenvolver a habilidade de sentir seu corpo interno onde quer que estejam. Sentado em uma cadeira, eu estou sentindo-o agora falando com você e talvez você sinta o seu enquanto escuta. Estar presente no mundo externo com suas percepções sensoriais e ao mesmo tempo sentir o campo interno de energia é um bela maneira de estar neste mundo — conectado ao campo interno de energia e presente ao externo, escutando, observando e tudo mais. Uma prática maravilhosa. Altamente recomendada para todos.

Uma última pergunta. Ouvimos muito sobre iluminação. O que é iluminação para você? Você se considera iluminado?

Eu não me considero iluminado, pois não tenho um conceito de mim na minha cabeça, sobre quem eu sou. Outra maneira de expressar a iluminação seria não mais gerar sofrimento, nem para si nem para outros. Em vez de tentar encontrar iluminação, seria de mais ajuda querer estar livre do sofrimento. É a mesma coisa. Iluminação é finalmente reconhecer que a essência de quem você é, é sem forma. A sua essência não tem nada a ver com passado e futuro, não pode ser encontrada nas palavras, não pode ter um conceito sobre ela. Portanto, não pode ser agarrada. E, portanto, você não pode ter um ponto de vista de que “eu sou iluminado”. O que a iluminação traz é que a personalidade ou a pessoa se torna transparente, não mais se tira a identidade a partir do aspecto temporário de quem é, a pessoa que é condicionada pelo passado — isso se torna transparente, você não está identificado com isso, e algo mais profundo brilha através de você. E isso é a consciência em si; você percebe que é a luz da consciência e não a pessoa limitada. E assim você não está separado de mais ninguém, e sim uno, pois a luz da consciência é a inteligência universal que permeia todo o Universo. 

Essa é a essência de quem você é, não separada de nada. Você é um com a essência de toda a vida. Portanto, dizer “eu sou iluminado e outra pessoa não é", isso não é uma verdade. Todos já são um com a essência, podem não saber. Não há um senso de ser especial ou superior de maneira nenhuma. Perceber quem você é além da forma física e da forma psicológica, além do corpo e da mente, perceber quem é, é a iluminação. Mas se alguém pergunta "quem é você?" , você não vai conseguir responder. Qualquer resposta que dê é uma limitação novamente.

Sim... muito obrigado, Eckhart.

Obrigado você. Espero que não seja muito difícil para transformar isso num artigo que possa ajudar os leitores! Eu leio e falo espanhol, posso entender provavelmente uns 70% do texto em português. Por favor, me envie uma revista quando estiver pronta! Eu gostaria, um dia, de visitar o Brasil. Nunca estive aí, mas gostaria muito de ir um dia.

Será um prazer ajudá-lo no que for possível para que venha.

Vou focar nisso e pode acontecer.

Espero que sim. Obrigado pelo seu tempo, Eckhart.

Eu que agradeço. “Blessings to you” (bênçãos a você).

(fim)

Para saber mais sobre a obra do autor, acesse www.eckharttolle.com
Para saber sobre a revista Prana Yoga Journal: http://eyoga.uol.com.br/

Todos direitos desta entrevista estão reservados.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Documentário Eu Maior

Quero compartilhar aqui um projeto novo, um documentário sobre auto-conhecimento.
Sou co-produtor deste filme, com muitas boas surpresas.

Estamos já colocando no ar o website do filme (e blog), e estaremos compartilhando trechos de entrevistas durante o período de produção: www.eumaior.com.br



Vale a pena pelo conteúdo, links para aprofundamento sobre os entrevistados, enfim, um espaço sendo criado com muito cuidado. Divulguem, participem, opinem.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Na Natureza Selvagem

Coluna Satcine publicada na revista Prana Yoga Journal Dez 09 - André Melman

Na Natureza Selvagem (DVD)
Direção: Sean Penn, 2008
A adaptação do livro de Jon Krakauer baseia-se na experiência real de Christopher McCandless. um jovem recém-formado nos EUA que abandona todas suas posses e segue numa jornada rumo ao Alasca. Vai de encontro à natureza pura onde a sociedade não dita as regras. Chris é um peregrino em busca incessante pela verdade; foge das mentiras familiares e dos papéis que teria que assumir para ser aceito.
Um filme que expõe a delicadeza que é estar realmente vivo. Sobre a beleza de se ver só numa grande aventura, e dos encontros mágicos que esse estar sozinho permite. Sobre as inevitáveis dores ao experimentar a busca pela independência, e suas incoerências ao se ver como parte de um todo maior. Questões surgem em relação aos limites, quando a própria natureza nos impõe seus ciclos, com cada estiagem e cheia de seus rios.
Uma celebração e lição de vida. Vale no mínimo pelas imagens e pela trilha, assinada por Eddie Vedder. Quem já viu e ficou curioso para saber mais sobre a vida de Chris pode dar uma olhada no documentário The Call of the Wild (não lançado no Brasil), com entrevistas de várias pessoas que cruzaram o caminho do jovem peregrino - Call of the wild.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Eckhart Tolle e a observação como a maior das armas

Já foram muitos livros, de Freud a Krishnamurti, Buda a Ramana Maharshi, retiros, técnicas de meditação, grupos de auto-conhecimento e aprendizados no dia-a-dia. Quero compartilhar que foi um marco e um grande presente quando li um livro de Eckhart Tolle, cerca de um ano atrás. Como se todos aprendizados fossem conectados de uma maneira muito simples e clara.

Estou lendo o último livro dele pela segunda vez, "Um novo mundo - despertando para o propósito de vida", onde ele descreve com muita clareza a maneira como temos nos relacionado, seja com outras pessoas, situações, ou com nosso próprios pensamentos,idéias ou emoções. A observação de si mesmo a cada momento vai sendo dissecada como uma ferramenta indispensável para que possamos transitar pelo mundo, em paz.

Lógico que não é um novo ensinamento, mas um maneira nova de esclarecer o que já vem sendo falado há milênios. Basicamente ele coloca que percebo como "eu", tudo aquilo com que me identifico: o corpo, um carro, uma conta bancária, mesmo sutis como uma idéia, um pensamento ou uma emoção - e que vou me defender de tudo aquilo que perceba como um ataque a estas formas. Daí surgem todas as reações, brigas e guerras.

O aprendizado, conforme captei através das "minhas" lentes, é transitar por todas essas "formas" percebendo que não sou estas formas, mas sim o observador por detrás delas. Um observador sem formas, sem fronteiras. Esse é o desafio, um chamado para testar e confirmar. Segundo ele, na identificação com esse "espaço", com esse "eu" sem forma, está uma bem-aventurança além do tempo, além das percepções de falta, de carência. E o portal para este "espaço" observador é o agora, nunca os pensamentos sobre o passado ou futuro, sempre o agora, o único tempo que existe, nesse momento.

Observando meus pensamentos, percebo que não sou o pensamento, mas sim aquele que observa. Parece confuso mas vai ficando cada vez mais simples e mais fácil de observar. Um ensinamento que deixa muito claro que o aprendizado é aqui e agora, nunca num futuro distante, num "paraíso" idealizado. E que esse aprendizado não diminui a alegria de estar no mundo, nas relações, pelo contrário.

Coloco abaixo um video dele falando sobre responsabilidade (em inglês), mas há vídeos no youtube com legendas em português também.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Vida dos Outros - dvd

Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Out 09 - André Melman

Alemanha Oriental, começo dos anos 80, antes da queda do muro de Berlim.

A espionagem invasiva que o filme retrata, me mostrou uma batalha: artistas que vivem a partir da expressão de um lado e burocratas que vivem do controle dessas expressões do outro.
E tive o prazer de ver uma veia artística nascer em um burocrata, e a tristeza de testemunhar o medo do descontrole contaminar uma artista.

Fácil enxergar vítimas e abusadores, mas com um olhar mais afiado, é possível captar como cada um vai montando sua própria estória.
A vida dos outros passa a ser a de si mesmo, os outros como espelhos, sejam eles guias ou desafios no caminho.

Quando uma artista deixa de focar em simplesmente ser, e escolhe fazer para ser aceita, para se sentir segura, afastando-se do Dharma, é presa fácil num mundo de controle externo, dos burocratas. E também quando um burocrata altamente controlado passa a escutar com atenção e cuidado, uma possibilidade enorme surge para deixar o lugar seguro e arriscar-se em ser.

A beleza do jogo entre vilões e heróis – Lila - uma dança, onde a verdade dentro de cada um, ou o abandono dessa verdade, vão criando tonalidades mais cinzas ou mais coloridas.

Nesse filme entendi realmente o que representou a queda do muro. O muro está se desmontando dentro de mim, e um antigo mundo de controle excessivo vai dando lugar a novas formas de ser e se expressar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Só para estar junto

Uma linha fina, delicada.
Estar vivo de verdade, é caminhar como um equilibrista, é se perceber vulnerável a cada momento.
Estar vivo é muito delicado, é raro, e vai muito além de perambular pelo mundo.

Envolve aprender a estar só, para estar junto. Inclui ser sensível, com todos os poros, em contato com uma força que existe como pano de fundo.

Sabemos que estamos vivos quando não há compromisso algum que vá além da nossa verdade, de nossa ética mais profunda. Sabemos que estamos no limite do viver quando a abundância toma lugar da percepção de falta.

Falo da experiência de um vivo-morto, no aprendizado do ser só, no meio de tantas lindas companhias. Que está aprendendo que qualquer compromisso no mundo, é somente uma suave consequência do compromisso com a vida, que pulsa por detrás de cada movimento.

Vivo-morto pelas muitas partes, células, órgãos a serem ressucitados e realinhados com tal pulsar.
Vivo pois já se percebe como parte desse fluxo além do tempo.
Morto quando acredita que é dependente, quando compromete sua verdade em troca de algumas migalhas.
Vivo ao sentir uma alegria por detrás de tantas emoções que flutuam ao longo de um só dia. Morto quando se finge de independente, e se coloca frio perante o outro com medo de depender.
Vivo ao abrir os olhos no meio do mundo e encontrar um outro em sua nudez.
Morto ao temer a própria vulnerabilidade e fugir da beleza por detrás da dor.

Estar só é a delicadeza de encontrar um outro "solitário". A solidão nada tem a ver com os papéis que representamos. Estar só é um estado, uma visão de mundo. Estar só é ir ao encontro de si para encontrar o outro por inteiro. É preciso se ver só para se ver conectado realmente.

Aqui solto palavras, de quem nada para cruzar o rio novamente. De quem já se achou vivo, já se viu morto, e se esforça para abrir os olhos no meio da correnteza.
Falo aqui de um lugar suave, em movimento. De um lugar conectado com uma força, que liberta, que permite tamanha sensibilidade e dor. Tamanha sensibilidade e encantamento por esses mundos afora e adentro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Gravidade

Sujeito à uma força externa que me empurra ao solo, algo independente da minha vontade me impede de voar, de dar saltos gigantescos. A lei da gravidade.

Assim passamos a acreditar. Desde "que tudo começou", temos a idéia da criação como algo externo, uma lei que limita no tempo e espaço. Provavelmente a saída de Adão e Eva do paraíso, a "queda", é uma metáfora para a crença enraizada na "lei da gravidade".

Assim vamos levando nossas vidas. Sempre há uma razão externa, um motivo fora de mim que me impede de alçar vôos, de dar saltos cada vez mais amplos. E falamos que são motivos graves: a falta de dinheiro, doença na família, violência na cidade. Enfim, a sempre presente lei da gravidade. Tudo fora me limita, tudo muito grave. Vamos nos apoiando em autoridades externas, em "Isaac Newtons" e levando a vida com v minúsculo.

Aqui brinco com uma metáfora. Talvez alguns honestos yoguis nem considerem isso uma metáfora, já que podem saltar com uma leveza extraordinária ou até mesmo levitar. Dizem que Jesus caminhou pelas águas. Uma leveza que foi sendo adquirida por um conhecimento de cada mínima parte do corpo físico, sutil, astral, sem nehuma mágica envolvida. Provavelmente a ciência ainda entenderá muitos desses fenômenos.

Auto-conhecimento parece ser a única saída para a verdadeira liberdade, para escapar da lei da gravidade, de milênios de condicionamento, dos graves motivos externos que reafirmam a impotência a cada momento, da impossibilidade de ir além do passado confirmado.
Já estava escrito no Oráculo de Delfos - quem lá ia, procurando uma resposta fora, deparava-se com a frase gravada nas rochas: "Conhece-te a ti mesmo".

E nessa caminhada para se conhecer é preciso muita vontade, já que as quedas são constantes, repetidas vezes, cada uma dando oportunidade para conhecer mais um canto antes não visto, mais um gancho onde os cabos da gravidade se prendem.

Aqui não falo em aprender a voar como uma águia, mas na possibilidade de olhar todo esse condicionamento do alto, de um lugar onde me observo de fora, e posso perceber onde as amarras se prendem em mim, o que ainda não quero soltar, que medos me levam a fortalecer essa prisão.

Há alguns poucos anos atrás, veria esse texto como fruto da loucura de alguém, ou de uma ingenuidade extrema: como um ser humano pode ir além das leis do mundo?!
Talvez me tornei um "louco" perante o status quo, talvez inocente ao ponto de acreditar que posso voar, além das limitações que sempre acreditei.
Talvez escrevo somente para me convencer dessa possibilidade, onde essa delicada e ainda frágil percepeção ainda necessite de reafirmações, para que logo eu possa ver como uma parte inteira em mim, quem sou.

Sigo escrevendo para mim e para quem fizer algum sentido.
Voar é possível, com os pés enraizados no solo e soltando folhas e frutos ao vento.

domingo, 13 de setembro de 2009

O Contador de Estórias

Texto publicado na coluna Satcine da revista Yoga Journal - Set 09 - André Melman.

O cinema sempre me ofereceu um pote de possibilidades, percepções e insights. Desde ET, meu primeiro herói que curava plantas e pessoas com um toque de dedo, os filmes vem expandindo minha visão de mundo e de mim mesmo.

Quero compartilhar os presentes que recebi ao assistir este filme de Luiz Villaça, em cartaz e baseado em fatos reais.
Roberto Carlos teve uma infância bastante comum em capitais brasileiras, viveu entre a recém-criada Febem e as ruas do centro de Belo Horizonte nos anos 70. Seria uma estória a mais de desencontros, que tem seu destino modificado pela presença de Margherit Duvas, pedagoga francesa que se interessa pelo relato de vida do menino, que já era dado como perdido.

Margherit representa aqui o poder da escolha: mesmo com todos os medos, escolhe confiar no que sente. A cada ameaça, seu foco permanecia na inocência, e a criança ferida foi se abrindo para uma possibilidade esquecida: o amor. Roberto Carlos é hoje um contador de estórias de fama internacional, compartilhando sua verdade com crianças de todos tamanhos mundo afora.

Ao escolher ver o real e permanente por trás de tantos medos e traumas, Marguerit ensinou sendo, sem teorias ou filosofias. E eu pude me conectar com essa criança inocente e verdadeira, em mim, em cada um, além das defesas criadas por anos de batalha.

O cinema novamente me trazendo de volta, que bom.

domingo, 6 de setembro de 2009

O guerreiro e uma armadura rompida


Era um guerreiro, sim, sem dúvida alguma.
Um guerreiro em defesa de si mesmo, nem que para isso tivesse que dizer que lutava para proteger todo império, que lutava pela humanidade.

Um guerreiro com uma bela armadura, que o protegia muito bem contra golpes e armas.
Uma armadura bela mas com sua rigidez, que muitas vezes lhe tirava liberdade de movimento, muito pesada em outros momentos.

Mesmo com o peso a carregar e a liberdade limitada, a armadura garantia uma imagem de forte guerreiro, que causava medo em algumas pessoas e em outras levava à adoração - ou ambos ao mesmo tempo, uma idolatria amedrontada.

E assim seguia batalhando, lutando por uma imagem de vencedor, uma imagem que poderia ser adorada.

Com o tempo a armadura foi ficando pesada para um corpo já cansado. E alguns já se questionavam se este guerreiro lutava mesmo pelo império, ou se lutava somente pra defender sua própria imagem.

Um dia numa batalha feroz, sua armadura e fiel protetora rachou-se ao meio. Mesmo amedrontado conseguiu sair do campo em guerra ainda ileso, e chegou num belo lago.

Sentou na beira do lago, com o sol se pondo, e pela primeira vez pode olhar pra si mesmo sem aquela vestimenta pesada. Estava tão exausto que não havia como esconder o que via. Haviam feridas profundas pelo corpo. "Como isso é possível?!" - ele se perguntava - " Jamais fui ferido em guerra alguma!"

Percorrendo as feridas com os dedos, a sensibilidade era tamanha que qualquer toque trazia uma dor lancinante, como espadas cravejadas pela pele.
A cada ferida que entrava em contato, lembranças de um passado distante vinham à mente. Lembranças de momentos em que se sentiu abandonado, das vezes em que não conseguiu se expressar verdadeiramente, em que se sentiu incapaz de ser quem sentia que era realmente.

Com um pouco de água do lago cristalino foi limpando cada ferida, lágrimas de uma dor quase insuportável caíam de seus olhos, urros de raiva brotavam da garganta. Os tenros raios de sol chegavam ao seu corpo como um carinho, penetravam fundo, até um lugar onde o sofrimento já não estava mais.

Desse espaço de quietude, continuou o processo de limpeza e cuidado consigo mesmo. Lágrimas e gritos vinham mas já com mais fluidez, sem tanto controle, e uma certa alegria surgia ao mesmo tempo. Uma alegria ao perceber um passado se dissolvendo, por perceber uma imagem há tanto tempo protegida, como irreal.

Muitas dessas feridas foram curadas naquele dia mágico à beira do lago, outras ainda precisavam de tempo, cuidado e carinho.
A armadura partida foi deixada ali, e aos poucos o guerreiro deixou de lado batalhas para defender o império.

E fez uma nova armadura, mais leve e flexível, a qual poderia retirar com facilidade quando quisesse. Assim que estivesse confortável, num rio, num pôr-do-sol, ou com um ouvido sincero, a armadura era posta de lado e as feridas iam sendo curadas.

Em outros momentos, onde a confiança ainda não permitia expor as feridas que via, deixava a armadura, por escolha própria, sem querer provar nada a ninguém, simplesmente sabendo seu próprio limite, com amor a si mesmo.

E seu caminho foi seguindo assim, com armaduras mais leves, cada vez mais tempo exposto ao ar e ao sol, à terra e a água. As feridas iam se curando quando menos esperava, mesmo algumas bem profundas.

E assim foi se dando conta de quem era, mesmo com as feridas que via, e as feridas foram caindo para um segundo plano. Num primeiro plano, já brotava uma alegria por experienciar cada momento, cada lágrima e cada sorriso, um sentir profundo que o conectava a tudo ao redor.

Um guerreiro conquistava a si mesmo, numa batalha sem fim.

domingo, 30 de agosto de 2009

Um grito em silêncio reverbera ao infinito

Ahhh, um grito das profundezas
Indo além das convenções e regras
Um grito em silêncio
Mas disponível pra quem quiser escutar

Um grito de criança
Daquela que tem o sonho de dominar o mundo
Pra que tudo seja como quer que seja

Um grito de adulto
Que expressa sua criança mimada
E sabe que esse sonho de dominação já não é saudável

Um grito de dasabafo
Sem a seriedade forçada
Sem negociações
Por pura brincadeira

E assim é possível olhar pra mim mesmo
Livre de um antigo sonho de poder
Que já não me domina mais

E assim posso soltar os outros
Que abafam suas crianças
E posso ser livre dentre tantas crianças
Abafadas como a minha

Sigo assim por detrás dos bastidores
Reconhecendo cada um sem suas máscaras
E a mim mesmo por detrás da minha

Solto nesse grito um compromisso infantil
Um compromisso que já não faz mais sentido
De fingir que um dia posso dominar o mundo
De fingir que sempre tenho a razão

Um grito que reverbera nas entranhas
E vai até além do infinito

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O grupo: seu poder e seus desafios


Já quando nascemos caímos num grupo, numa família, que estruturada ou não, já é o primeiro e provavelmente mais influente círculo de pessoas, na vida de cada um que passa por esta experiência humana.

Pai, mãe, avós, irmãos mais velhos, tios, todos foram me servindo como professores, me ensinando como falar, comer, me comportar, como fazer parte desse grupo no qual estava chegando.

Fui crescendo e pude experienciar fazer parte de novos grupos, na escola, no clube, no acampamento, no prédio em que morava, e com cada grupo fui aprendendo novas maneiras de fazer parte. Nesses primeiros, como vieram a mim muito pelas escolhas dos meus pais, as maneiras e regras eram bem similares às que eles haviam me ensinado, e na maior parte do tempo, pareciam coerentes.

Mesmo durante a adolescência e após, continuei traçando um caminho onde as escolhas estavam muito coladas às da infância - a primeira formação na universidade, por exemplo, foi exatamente a mesma do meu pai. As formas que eu representava para me sentir aprovado foram seguindo um curso quase homogêneo, logicamente com dificuldades crescentes, pois os grupos eram cada vez mais abertos e porosos. A faculdade, mesmo sendo de engenharia, era um mundo muito mais aberto do que a escola judaica que eu frequentara.

Hoje consigo ver com mais clareza que a cada novo grupo, muitas de minhas antigas maneiras de atuar para me sentir amado e aprovado, eram colocadas em cheque. A cada novo grupo eu precisava me flexibilizar para enxergar o ponto-de-vista do outro, lapidar minhas estratégias para ser parte com algum conforto.

E vieram muitos outros grupos, cursos fora do país e equipes de trabalho em diversas empresas, onde o processo continuava.

Em um certo momento ou período, vejo uma primeira mudança de atitude. Foi quando percebi que podia começar a escolher por mim, indo além das escolhas vindos dos grupos primais. Muitos vivem isso na adolescência, eu sinto que somente fui viver isso de verdade depois dos 25 anos, depois de algumas crises por doenças incômodas, morte na família e encontros com pessoas inspiradoras.

Esse é um marco importante pois dali foram surgindo desafios ainda maiores. Os novos grupos que fui escolhendo participar foram permeando os que eu já fazia parte. Me desligando de alguns, me aproximando de outros. Vieram grupos de auto-conhecimento, de terapia, nova faculdade - de psicologia, comunidades na Europa, India, Israel e Brasil, rede de empreendores sociais e novos círculos de trabalho, cada vez mais conectados e abertos.

Um caminho que me desafiava a ser cada vez mais flexível, a romper com antigos padrões que já não me alimentavam mais, a ser cada vez mais quem eu escolhia ser.

Interessante, olhando para todos esses processos, é perceber a sutileza do ato de escolher. Nesse processo que continuo vivendo, quando penso estar escolhendo por mim, vejo que muitas vezes ainda estou no padrão de escolher para ser aceito e amado pelo grupo ao redor, pelo medo de me sentir abandonado. É sutil pois os grupos vão se tornando mais amplos e mais diversos, e eu cada vez mais flexível - e a flexibilidade é um grande instrumento para ser aprovado, e me abandonar em tanta flexibilidade.

Agora sinto nesse período um novo marco, uma nova transição que acontece agora. Parece que para iniciar esse novo ciclo precisei voltar vivenciar nos últimos meses a experiência de um grupo fechado, no caso um grupo de meditação com uma mestra como autoridade máxima. Nesse grupo, onde o trabalho está focado na responsabilidade das escolhas a cada momento, no sentir e vivenciar sua própria experiência, a minha flexibilidade adquirida já não gerava os mesmos resultados. Minhas estratégias para ser aceito foram sendo desmascaradas com mais força - inclusive esta semana, uma das mestras, autoridade nesse grupo, leu meu blog e disse que era mais uma ferramenta minha para ser amado e querido.

Caminhada delicada essa que surge. Fazer parte de grupos, muitos de amigos de longa data, com mais responsabilidade, alerta ao abandono de mim quando esqueço dessa fonte de amor abundante aqui dentro. Um novo marco pois é como se eu tivesse tomado uma dose do veneno da cobra como soro para cura - que bom que foi na dose certa! A autoridade externa me acordando para que eu encontre a autoridade em mim mesmo, sem abusos.



Um novo movimento onde não sinto que preciso abandonar os grupos para continuar crescendo e me responsabilizando, mas tenho sempre essa liberdade de abraçar outros que me tragam novas possibilidades de crescimento.

Caminhada sutil pois os grupos, como minha primeira família, passam a ser vistos como um grande reflexo de quem sou, me apontando o que ainda não consigo ver. Sutil, pois cada um em cada grupo também falha em encontrar a amor por si e projeta fora, em encontrar a autoridade por si e projeta fora.

E assim vou pintando com novas cores que surgem, com mais clareza e discernimento, sabendo que posso fazer parte de grupos e escutar autoridades externas. Que posso abraçar o melhor do que vejo fora, e que o caminho é para dentro sempre, além de tantas projeções.

E escolho continuar escrevendo, mesmo que ainda seja uma forma de ser amado, pois por enquanto, sinto que me amo quando assim faço, e é parte essencial da minha liberdade mesmo fazendo parte de tantos grupos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tempo tempo tempo...

Hoje é lua nova, uma amiga me disse que é uma grande oportunidade pra recomeçar, iniciar um novo ciclo. A oportunidade está sempre presente então, cada 28 dias um novo começo. E por que repetir tudo da mesma forma?!


Essa questão do tempo tem estado muito presente, o tempo como uma oportunidade pra rever, transformar, fazer diferente. Quantos ciclos já não vivi fazendo tudo igual, seguindo os mesmos padrões, me rendendo aos mesmos medos.
Tudo bem, já me aproveitei de muitas oportunidades para mudar, crescer, me abrir pro novo, mas é incrível perceber que essa possibilidade é constante, a cada instante. O tempo é como um grande instrumento que deixamos guardado na caixa de ferramentas para um momento mais propício e confortável.

O aprendizado nos últimos meses tem sido basicamente esse: se eu não uso o tempo com todo o potencial que ele me oferece, viro refém dessa ferramenta obsoleta. Entro assim na roda do condicionamento por padrões do passado e adiando a abundância e felicidade para um momento futuro, quando "estiver pronto". E usar o tempo tem toda sua sutileza, envolve ser vulnerável, estar fora do controle...

Se o tempo pudesse falar ele diria claramente: "meu único papel é te ensinar a me soltar, soltar essa idéia do que já fui e do que serei". Nesse exato momento, o tempo é somente uma idéia, onde só o momento existe, o que é, com todas suas potencialidades, agora.

Parece livro de auto-ajuda, mas é mesmo. E agora nessa lua nova me disponho a me ajudar, a ouvir a voz mais profunda do tempo, esse grande pai. E me disponho a perceber a beleza de cada momento, de cada encontro, com a noite, com a chuva, com o gato da vizinha, com as flores no quintal, das cores e cheiros. Me abro pra possibilidade de escutar cada um sem tantos vícios e expectativas, e me desapegar desse grande professor, autoridade mundial, o Tempo.

domingo, 26 de julho de 2009

Além dos medos

Escrevo agora do Uruguai, Costa Azul. Estou há uma semana num intensivo de meditação e exploração de mim mesmo, um centro liderado por uma mestra australiana. Aqui, nem mesmo se usa a palavra meditação, mas unificação - perceber e viver a unidade dentro da dualidade. O que se ensina aqui é que tudo é um espelho de quem sou de verdade, que tudo o que vejo e percebo como dois (eu e o outro, sujeito e objeto) na verdade é um só.

A principal força que percebo aqui é que não existe teoria, mas somente experiência, explícita! Tudo o que acontece aqui é uma oportunidade para me conhecer, ir mais profundo. E posso dizer que é arrebatador – quanto mais me exponho, meus pensamentos e sentimentos, mais recebo de volta. Quanto mais insisto em continuar nas minhas elaborações mentais, mais sou empurrado a me conectar com o que sinto. É como aprender uma nova língua para perceber o mundo, sair da cabeça para o coração – com muito choro e muita raiva envolvida. Contrações e expansões.

Por isso resolvi escrever agora, pois aqui nesse centro existe um “lugar seguro” para me expor, mas me expor aqui nesse blog é um outro desafio, já que o feedback não é imediato. E esse é o ponto principal – o feedback, a aprovação ou reprovação.

Nesse aprender a ser mais vulnerável tenho percebido como passo a maior parte do meu tempo protegendo uma imagem de mim mesmo, gastando caminhões de energia pra isso, pra ser aceito, aprovado, e assim acreditar que devo continuar gastando tanta energia com isso. E toda minha sensibilidade é direcionada para fora, para entender como receber a aprovação de cada outro, para conseguir o que quero - e são tantas imagens diferentes pra se proteger, uma loucura! Mesmo escrevendo agora, me pergunto. O que quero com esse texto, aprovação? Talvez mais uma armadilha pra mim mesmo, mas mesmo se for assim , virão aprendizados.

Lógico que percebo isso em praticamente todos os estudantes por aqui, mas isso não importa, pois me espelham continuamente e assim posso ir soltando cada vez mais. O grande ganho que estou absorvendo, é uma abertura pra ver o outro, e sentir uma comunhão por detrás de tantas máscaras. Aprendendo que minhas máscaras estão sempre presentes mas que posso parar de viver em função delas - a máscara do bom menino perfeito e bonzinho, máscara do conquistador sensível, máscara do buscador espiritual, a do homem sério provedor, a do justiceiro social e assim vai, sem fim.



E me desgrudando dessas máscaras posso ver o outro por detrás das máscaras também, mesmo que o outro esteja totalmente identificado. E é nesse lugar que deixo de ser dois, eu e o outro. Nesse lugar posso me encontrar com o outro e comigo mesmo. Mesmo sem palavras, sem gostar ou deixar de gostar, simplesmente perceber o que é. Ou seja, a responsabilidade é totalmente minha, me desapegar das minhas máscaras é tarefa minha e somente minha.

Na prática durante os últimos dias tenho tomado muita “porrada” quando tento me segurar no padrão antigo, me escondendo por detrás de máscaras – pois tudo que incomoda aqui é incentivado a se expressar diretamente. Quando tento mudar algum outro que me incomoda, todas minhas defesas ficam evidentes. E quando me coloco vulnerável, mesmo com todos os medos de uma ferida aberta, o outro de verdade fica evidente, e há um encontro além das expectativas.

Esta é uma nova possibilidade de levar esse aprendizado para minha vida além das fronteiras de um centro de meditação e de práticas explícitas. Continuando a caminhada para além do medo, mesmo com todos os medos do mundo.

domingo, 12 de julho de 2009

A Partida - ouvindo o silêncio


Sabe quando já ficou claro que uma determinada atitude já não se sustenta mais, e ainda não existe uma nova atitude consolidada no lugar da antiga?
Aquela sensação de estar numa daquelas pontes entre montanhas, com o desfiladeiro abaixo centenas de metros, onde qualquer vento já desestabiliza o andar?
É inseguro até mesmo falar desse caminhar instável quando apenas vislumbres do outro lado são intuidos. É possível olhar pra trás e ver os pontos de apoio, o antigo que dá apoio a estrutura. Mas o peso vai se deslocando para um novo lugar de sustento, conforme se caminha adiante.

Uma atitude onde sinto essa transição é a atitude perante o fazer. Cresci aprendendo e sendo educado para encarar o fazer a partir do controle: eu quero, eu decido, eu controlo, eu faço, eu colho os resultados. Esse eu independente se esforça, se sacrifica e recebe sua recompensa. Praticamente todas as provas do mundo sempre disseram que esse modelo funciona - luntando, competindo, se sacrificando, eu me realizo.

Mas um incômodo vem surgindo, de forma quase espontânea passei a intuir, sentir, absorver uma nova possibilidade: o deixar que seja feito, o abrir espaço para que um algo novo surja. Um questionamento profundo em relação ao fazer vem praticamente rasgando camadas de condicionamento.
Antes era por exemplo uma atitide de esforço trabalhando no mercado financeiro, para garantir meu sustento, meu conforto, meus ideais de casamento feliz, família, filhos e uma aposentadoria tranquila. Um movimento constante em relação à um futuro pessoal de auto-estima e paz, que sempre escapava pois era sempre futuro.
Também foi por exemplo a cobrança de ter que fazer algo pelo mundo, me juntar com outros que queiram mudar o que vemos, nem que fosse a partir da culpa. Todos juntos sofrendo, se estressando e tentando controlar as peças para um mundo melhor e em paz.

Seria realmente possível contruir um mundo de felicidade e paz a partir de uma atitude cheia de expectativas, controlando tudo e todos para que essas se realizem? Seria possível a partir de uma atitude de luta e esforço em relação ao mundo à minha volta? Perguntas como essas vem surgindo de forma inocente e crescendo em número e profundidade.

Lá estava a ponte de cabos semi-soltos, balançando à minha frente. E nessa ponte venho caminhando. Em alguns momentos parece um suicídio soltar o controle, parece ser um ato que ameaça a minha sobrevivência e ameaça as idéias de muitos à minha volta. Continuo nessa ponte, com muitos medos ao meu redor, mas quanto mais percebo onde estou, mais posso apreciar a vista, mais floresce uma confiança em algo que inclui tudo ao redor.

Um dos últimos filmes que assisti, "A Partida", traz alguns simbolismos fortes dessa passagem, dessa transição. Um filme japonês, que traz a força do silêncio, da comunicação não-verbal, do sentir.
Um jovem violoncelista do interior do país se esforçara para ter um lugar numa orquestra de Tokyo. Ficou chocado quando a orquestra em que havia conseguido o posto foi dissolvida.
Nesse momento lá estava a ponte bamba à sua frente, instável, insegura e sem nehuma garantia de levá-lo ao outro lado.
O bonito do filme é assistir a caminhada dele pela ponte, como um samurai, sendo o principal apoio a sua própria verdade - voltar para o interior, aceitar um emprego sem saber exatamente do que se tratava, fazer uma tarefa rejeitada por quase todos. A volta para o interior foi uma volta para si mesmo, um caminho para o sentir, para uma verdade independente de tantas crenças pessoais e coletivas, independente de tantos gostos e aversões.
O filme trata da morte, do corpo físico, mas principalmente da morte de um paradigma. A partida de um modelo para um novo, onde o medo pode dar lugar a talentos antes desconhecidos, a rejeição pode dar lugar à compreensão, onde o futuro pode ser um lugar que já existe agora.



Olhando dessa ponte já vejo que é possível soltar com mais tranquilidade meus planos futuros de sucesso e felicidade. Já vejo e sinto com mais frequencia que a paz existe somente agora, mesmo que muitos digam que não, me digam que está lá do outro lado da ponte, bem distante, onde só se chega com muito esforço e sacrifício.
Me inspiro no personagem japonês do filme, na coragem, na dedicação carinhosa, na possibilidade de ouvir a voz do silêncio, da verdade, mesmo com todos os medos do mundo girando ao redor. E vou percebendo o meu novo ponto de apoio, não no outro lado da ponte, mas num lugar muito profundo, aqui dentro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A deficiência eficiente

Hoje abri um pedaço de papel dobrado, com algumas anotações que fiz num encontro em Outubro do ano passado. Havia uma frase escrita por mim: "Como usar a deficiência de cada um para o acordar de todos?"
E logo abaixo coloquei alguns exemplos para saber do que eu mesmo estava falando, como: "criando novas possibilidades aos cegos, pode-se criar novos intrumentos de visão para os "cegos" de sensações e percepções", ou "criando novas possibilidades aos mudos e surdos, criamos novas possibilidades aos que são "mudos" de expressão".

Achei interessante a frase que tinha escrito, me trouxe uma certa clareza, um entendimento mais sutil daquelas palavras.

A maior parte do tempo tentamos nos afastar das nossas chamadas deficiências e das dos outros, pois incomodam, já que são limitantes para atuar no mundo, para transformar o que está lá fora.
E damos tanta atenção para o que está lá fora, nos identificamos tanto com o que vemos e ouvimos, que qualquer deficiência torna-se um peso, torna-se também parte dessa identidade.

Seja física, emocional ou psicológica, provavelmente a maior deficiência seja a própria identificação: os meus dramas, minhas limitações, meus traumas e consequentemente a projeção para o drama do outro, as limitações do outro. Assim eu me torno minha deficiência, e o outro a dele.

E se o que chamamos de deficiência não tivesse mais dono, se não fosse mais a minha ou a dele, dela, simplesmente fosse uma grande deficiência, como que um grande corpo com milhões de possibilidades de deficiências. Um corpo através do qual qualquer um poderia se identificar com uma parte dele e dizer que é aquilo. Um corpo que já existe há muito tempo, há centenas de gerações, disponível para essa identificação.

E se fossem tantas gerações se identificando com esse grande corpo, que já estivéssemos completamente condicionados a fazer o mesmo?
E se de repente, de um segundo para o outro, percebessemos, agora, que não somos esse corpo, que podemos nos desligar dele? Que podemos olhar e sentir esse grande corpo sabendo que não somos isso? Talvez a primeira pergunta que viria a seguir, seria então "quem somos, quem sou eu?". Só essa pergunta já vale a pena a experiência.
E essa grande deficiência, ou a de cada um na visão identificada, seria assim utilizada para o acordar de todos, acordar para uma nova maneira de ser e estar, provavelmente menos deficiente, menos dramática e mais em paz.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Re-identificando

Imagine um rio, visto de cima, o leito com suas sinuosidades, curvas.
Imagine os campos, arvores, florestas, bichos, vivendo nas margens desse rio.
Imagine alguns grupos de pescadores, agricultores locais, que pescam , plantam e colhem, vivem a partir da vida que esse rio traz. Se alimentam, trocam, vendem e compram em harmonia.




Imagine que um grupo de pessoas instale um fábrica, uma unidade de produção na margem do rio.
Imagine que essa fábrica utilize alguns insumos tóxicos e a água limpa do rio. E despeje boa parte desses elementos tóxicos de volta nas águas, que seguem rio abaixo.
Imagine que esses elementos tóxicos cheguem até as árvores e bichos nas margens. Imagine que cheguem aos peixes, aos alimentos cultivados, aos pescadores e agricultores.
Imagine que esses pescadores e agricultores, sem peixes, doentes, já não possam exercer suas atividades com antes.
Imagine que alguns desses ex-pescadores, agricultores, passem a trabalhar na fábrica. Outros permanecem sem trabalho. Que aos poucos aquela cultura local vá se perdendo, que as relações vão se desintegrando, que o consumo de bebida aumente, adultos sem função, crianças sem visão.
Imagine que o desejo de comprar uma tv suba exponencialmente nessa "comunidade". Que ter o novo produto, o novo tênis, a nova boneca, seja a máxima local. Imagine que o dinheiro seja escasso, que os valores vão se perdendo, o ter passe a ser mais importante que viver. Que o rio torna-se somente um lixão me movimento.
Só imagine.

Agora imagine uma pequena mudança: os donos e gerentes da fábrica devem seguir uma nova regra. A água a ser utilizada na produção deve ser captada abaixo ( a jusante) do local onde os dejetos são despejados.
Imagine que a água com toxinas não servem para a fábrica continuar com a sua produção. Essa é fácil de imaginar. Imagine que eles vão precisar achar uma nova solução.

Imagine que os donos da fábrica entendam assim que o rio começa antes e continua depois dessa fábrica. Que a fábrica não é um elemento separado do todo onde está.
Imagine que a percepção de "quem sou", a princípio uma fábrica, se amplie para todo o rio, antes e depois dessa fábrica. Imagine que esse "eu" se amplie para toda a mata e bichos nas margens do rio. Que inclua os peixes, pescadores, agricultores, adultos e crianças.

Imagine que que esse "quem sou" continue se expandindo, pra todas as relações, para os clientes, parceiros, para todos diretamente e indiretamente envolvidos, para as matas vizinhas, rios, mares.

Dá pra imaginar?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pausa para inocência

Voltar pode ser tão ou mais interessante que partir. É como reencontrar consigo mesmo antes da partida, uma oportunidade para olhar de um novo ponto-de-vista, cada relacionamento com pessoas próximas, com lugares, espaços, objetos que por aqui permaneceram durante a viagem.

Deve ser uma sensação parecida com a experiência de ter escrito um livro e, após algumas vivências, reler o que foi escrito pelas próprias mãos. O leitor já não é o mesmo, apesar das letras e palavras continuarem lá, estáticas. Talvez uma vontade de mudar algumas frases, capítulos, adicionar, retirar...mas o livro já foi publicado e tudo mais.
E a beleza está na possibilidade de começar a escrever um novo livro, trazendo todos aprendizados do que já foi escrito e compartilhado.

Chegar em São Paulo é intenso como o movimento nas ruas e avenidas, é triste como o grande rio poluído, é gostoso como o canto dos pássaros nas praças, é a dúvida perante a vida que levamos por aqui.

O olhar inocente ao chegar é o grande tesouro, tudo como se fosse novamente a primeira vez. A pureza da visão sem julgamentos, aberta aos sentimentos e emoções. Sentir a tristeza de uma cidade como São Paulo é uma tarefa para inocentes, pois é a avassaladora. Manter-se inocente apesar do medo de ser esmagado é um ato de guerreiro. Poder sentir tudo isso sem se identificar, culpabilizar ou vitimizar é um ato de amor.

Chegar e ser é algo desafiador no meio de um fluxo de fazer sem fim.
O fazer, construir, pode ser um grande instrumento de conexão, entre pessoas, com a natureza, com a essência.
Mas ao fazer como válvula de escape, modificando o que está fora como uma tentativa de escapar dos conflitos internos , compartilhamos conflitos, geramos mais conflitos. Esse fazer conflituoso, controlador, mesmo que seja para "salvar o mundo", merece no mínimo uma pausa para questionamento. Questionarmos se este fazer é pra aliviar uma carência, uma sensação de falta.
E as fórmulas do fazer não existem para o ser. Fazer sem esse contato com a essência, com a inocência, nos tira do processo, nos desconecta da abundância, nos impede de sentir por inteiro.
Conectando somente com algo a ser atingido, como se lá existisse um espaço de respiro, é somente lá e não aqui.


Fazer a partir da inocência é ser, é brincar, sentir e se maravilhar. É se machucar e levantar mais atento, é compartilhar um mundo de possibilidades, é planejar sem apego, é caminhar com amigos.

E quero caminhar, com amigos, atravessar rios, molhar a roupa, deitar na terra, viver por inteiro, sem medo de sentir, de ser inocente.

E compartilho das palavras de Gonzaguinha...

Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Voltando da bolha



Os últimos dias foram cheios no Schumacher College e nas redondezas. Saindo da bolha, uma força que praticamente impediu de me conectar com qualquer assunto fora do que estava vivendo aqui.
A sensação agora de estar sendo praticamente expulso da bolha, como que sendo colocado pra fora da casca confortável, do ambiente "controlável". E está sendo ótimo!

Foram duas semanas com um grupo de empreendedores de diversos países, iniciando ou desenvolvendo projetos e negócios. De alimentos a imigrantes, de maternidade a crianças, de construção a flores, focos diferentes mas todos voltados para o desenvolvimento de conexões reais entre as pessoas, e com o planeta Terra, esse organismo vivo.
Um grupo que me ensinou muito sobre quem sou e onde estou, que me encheu de esperança, de novas possibilidades, de confiança.

Num dos pontos altos do curso, na sexta-feira passada, tivemos o privilégio de estar com uma pessoa incrível durante o dia todo, Tim Macartney, um ex-jardineiro que hoje dirige um centro de liderança com clientes que vão de crianças a altos executivos de multinacionais. Um grande presente de aniversário. Diria que não vi nada de novo, nada que nunca tinha lido, pensado ou mesmo vivido - mas o contexto, a presença experienciada, me trouxe muito conforto e paz no caminho, uma certa tranquilidade ao perceber com clareza que liderar é simplesmente ser, verdadeiramente.

Falar sobre liderança com um grupo de empreendedores ávidos por desenvolver seus sonhos na prática, dentro de uma escola inglesa onde a cultura do pensar praticamente deixa em segundo plano a possibilidade de sentir (mesmo sendo uma escola com objeitvos holísticos) , poderia se tornar somente mais um daqueles guias sem vida, um daqueles passo-a-passo para se moldar, se inspirando nos grandes líderes do passado.

Não falamos de nenhum líder, não seguimos nenhum modelo de liderança durante o dia. Não montamos juntos uma estrutura de um plano de negócios durante o encontro. Simplesmente falamos de nossos medos, do que escondemos debaixo do tapete, dos nossos "wild dogs" - os cachorros selvagens da nossa personalidade que quando reprimidos reaparecem de formas sombrias.
Foi um dia onde o grupo se aproximou, onde as idealizações foram perdendo força, onde a honestidade consigo mesmo era a única coisa que servia pra se comunicar.

A partir desse lugar pudemos investigar mais a fundo nossos projetos nos dias que se seguiram. Investigar os principais dons, os próximos passos, organizar as idéias, apresentar pra diversos públicos, realinhar expectativas. E principalmente, pelo menos no meu caso, abrir mão do controle, da propriedade individual do projeto. Entendendo com mais clareza agora, que só serei feliz desenvolvendo um projeto aprendendo a receber amigos, mentores, parceiros, investidores e profissionais nesse espaço de desenvolvimento. Pessoas que estarão se comprometendo com o mesmo sonho, co-criando.

Hoje, aqui em Dartington na região de Devon, o céu está limpo, um azul brilhante, folhas cobertas pelo gelo, um silêncio no ar, uma sensação de espaço aberto, de nvoas possibilidades. Agradeço essa terra linda, aos encontros, aos amigos de hoje e sempre.

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